Chegamos na última semana do primeiro turno das eleições gerais no Brasil em 2026. E já é possível afirmar que, para variar, as grandes empresas de tecnologia não cumpriram as regras.
Mapeamos 13 levantamentos e estudos de centros de pesquisa e da imprensa que mostram falhas sistemáticas das big techs durante a campanha: recomendações de candidatos, conteúdos de IA falsos circulando sem rotulagem, anúncios irregulares pagos em dólar e falta de transparência.
Tudo está documentado – você pode ler as reportagens e relatórios nos links abaixo –, mas nada, até agora, fez com que as empresas fossem responsabilizadas. E já estamos no final da campanha de primeiro turno.
Por isso, a CTRL+Z protocolou um pedido ao Ministério Público e à Corregedoria Geral da Justiça Eleitoral pedindo remoção imediata dos conteúdos irregulares, suspensão cautelar de anúncios, apuração do financiamento estrangeiro e a garantia de que o silêncio eleitoral seja devidamente cumprido.
Esse é o primeiro pleito nacional brasileiro integralmente atravessado pela massificação de ferramentas de IA generativa, e o TSE construiu uma resolução pioneira para proteger o processo eleitoral. O gargalo, aqui, está no cumprimento dessas regras.
Google, Meta, TikTok, OpenAI, Kwai e xAI, entre outras empresas, foram obrigadas a apresentar planos de conformidade e memorandos de cooperação ao TSE.
Neles, muitas promessas de moderação de conteúdo (como informações incorretas ou que coloquem em xeque o processo eleitoral), a disponibilização de canais de denúncias, alegação de neutralidade política, e também muitas saídas escorregadias.
Se confrontadas com a realidade documentada das violações neste pleito, fica claro: essas empresas descumpriram suas próprias promessas e não foram devidamente punidas por isso.
Compilamos diversas evidências de hierarquização e sugestão de candidatos, anúncios com desinformação, conteúdos ilegais gerados por IA e impulsionamentos pagos em moeda estrangeira.
Aqui é importante frisar: todas as provas de violações cometidas não são evidências de falhas pontuais, de um defeito imprevisível ou uma amostra isolada; é um padrão.
Padrão que já existe fora do período eleitoral e que apenas se repetiu nesse momento ainda mais sensível para definir o futuro das nossas vidas. A partir de levantamentos de instituições como NetLab/UFRJ, Agência Lupa, InternetLab, Sleeping Giants, Folha de S.Paulo e mais, vimos que práticas expressamente vedadas pelas regras eleitorais desde março deste ano tornaram-se rotineiras e viabilizadas pelas empresas de tecnologia em operação no Brasil.
Entre as 13 violações documentadas, estão:
IA generativas estão ranqueando e recomendando candidatos. Múltiplos testes, realizados por veículos como Jota, Folha, CBN e BBC, mostram que ChatGPT, Grok, Google AI Mode, Claude, DeepSeek e Gemini montam rankings e recomendam candidatos quando provocados. Essa é uma violação ao art. 28, §1º-C, I e II, da Resolução TSE 23.610/2019, que proíbe sistemas de IA de ranquear, recomendar ou favorecer candidaturas. Além disso, uma pesquisa do InternetLab mostrou que mostrou que os chatbots estruturam opções eleitorais conforme o perfil inferido do usuário. É um favorecimento indireto que viola o art. 28, §1º-C, II.
Deepfakes são gerados e circulam sem avisos de IA. Um teste do Sleeping Giants Brasil pediu às IAs que criassem imagens falsas de Lula e Flávio Bolsonaro, além de um cartaz falso do TSE cancelando a votação. O ChatGPT, Gemini e Grok obedeceram, e não incluíram marca d’água. É uma violação dos arts. 9º-B (rotulagem obrigatória), 9º-C (vedação de deepfakes eleitorais) e 9º-E (responsabilidade solidária dos provedores). Outro monitoramento, da VigIA, identificou nos primeiros dias de campanha 282 conteúdos com IA em circulação nas plataformas – destes, 64% não tinham nenhuma rotulagem.
TikTok surfou ‘trend’ de candidato. A Lupa mostrou que a seção “Inspiração” do TikTok Studio listou “Busca por Augusto Cury cresce” como trending topic, com 5 dos 10 conteúdos indicados sendo favoráveis ao candidato, sem a etiqueta informativa prevista no memorando TikTok-TSE. Pode se enquadrar como favorecimento político-eleitoral.
Anúncios irregulares pagos em moeda estrangeira. A organização internacional EKO mostrou que a Meta recebeu ao menos R$ 1,1 milhão de 26 perfis para impulsionar centenas de anúncios com deepfakes. As páginas eram administradas do Peru, Colômbia e Guatemala, e o pagamento foi em moeda estrangeira. Outro levantamento da Eko mostrou que a Meta aprovou anúncios com deepfakes, incluindo ameaças a congressistas e apologia ao 8 de janeiro, também enviados de contas dos EUA. A Anistia Internacional também constatou anúncios com desinformação que estavam no ar, enviados de Londres, sem verificação. A Lupa também mostrou que uma rede coordenada de páginas e sites falsos de jornalismo gastou US$ 106 mil em impulsionamento na Meta, com anúncios pagos em dólar.
Transparência de fachada. O NetLab/UFRJ avaliou a Biblioteca de Anúncios do Kwai e constatou descumprimento em 5 dos 11 critérios do TSE: gastos só em faixas vagas, alcance impreciso, sem perfil de público, sem busca por palavras-chave, sem API.
Enquanto isso, o TSE, comandado pelo ministro Kassio Nunes (vulgo KN), assistiu de braços cruzados. Pesquisadores, redações de imprensa e organizações independentes produziram, a custo próprio, o conjunto de evidências que a Justiça Eleitoral precisava para agir — e o Tribunal respondeu com silêncio, falhando em usar os instrumentos de coerção que a própria lei lhe confere.
Ao se fazer de rogado, o TSE permitiu que as eleições de 2026 ficassem marcadas pelos chatbots que operaram como cabos eleitorais, pelos conteúdos de IA sem rotulagem, pelas contas derrubadas sem justificativa, e pelos anúncios políticos pagos em dólar por anunciantes nos EUA.
Por isso pedimos, dentre outras coisas: 1) que as empresas sejam responsabilizadas por não terem impedido que suas ferramentas indicassem candidatos; 2) que sejam obrigadas a informar quanto lucraram com anúncios ilegais; 3) que os planos de conformidade das plataformas sejam fiscalizados de verdade.
A nossa democracia – e o nosso futuro – dependem disso.




