A escala 7x0 da internet (que as big techs não querem que você veja)
Se você acha que trabalhar com IA garante bons salários e mesa de ping pong no escritório, você está enganado.
Enquanto os trabalhadores do Brasil lutam para garantir o fim da escala 6x1, existe uma realidade bem longe da dignidade no coração da indústria de tecnologia. Se você acha que trabalhar para big techs é viver uma rotina de bons salários, comida de graça e mesa de ping pong no escritório, você está enganado.
Muito longe da Faria Lima e do Vale do Silício, uma legião de trabalhadores precarizados, mal pagos e sem treinamento, trabalha de casa, sem garantia e recebendo menos que um salário mínimo para prestar serviços para big techs.
Neste momento, alguém está em uma plataforma online moderando conteúdo violento sem suporte psicológico. Ou fazendo fact-checking de notícias de política sem ter treinamento para isso. Vendendo selfies, ou fotos de crianças aleatórias. Há quem também esteja tirando fotos de seus próprios RGs e passaportes para subir em uma plataforma por alguns poucos reais. Todas essas são tarefas reais em plataformas de dados, que terceirizam trabalhadores para prestarem serviços para a indústria de tecnologia.
Os trabalhadores são proibidos de criarem grupos e falarem sobre o trabalho, e podem ser banidos a qualquer momento sem explicação. Não há salário mensal – o pagamento é feito por tarefa. Algumas pagam centavos, outras um pouco mais. Dados de 2023 mostraram que, no Brasil, a média salarial em geral ficava a menos de R$ 10 por hora, e a renda mensal era de menos de R$ 600.
Com o pagamento baixo, muitos passam a madrugada acordados em busca de novas tarefas, e trabalham sete dias por semana – muito desse tempo é não remunerado, em treinamentos e à espera de novas tarefas. É a escala 7x0 da internet.
Esse é o mundo do trabalho de dados, contratado principalmente por big techs para treinar seus sistemas de inteligência artificial. Um relatório da SOMO, organização holandesa que investiga grandes corporações, mapeou 30 fornecedoras de trabalho de dados no mundo, e constatou que as big techs – particularmente Amazon, Google, Meta, Microsoft e Nvidia – são as principais contratantes dessas empresas. Assim, são diretamente responsáveis pelas condições de trabalho dessa indústria, que foi turbinada com a IA.
Como as IAs precisam de muitos dados organizados, limpos e interpretados para que possam funcionar – e, assim, aprender com os padrões para reproduzi-los –, as empresas de tecnologia precisam também de um imenso volume de trabalho humano para preparar esses dados. Mas, em vez de contratar essas pessoas, contratam plataformas de tarefas remotas pelo mundo – e terceirizam não apenas o trabalho, mas também a responsabilidade.
Por serem parte de uma cadeia longa e opaca, os trabalhadores de dados muitas vezes são chamados de “fantasmas”, ou “escondidos”. Mas eles existem e são muitos, inclusive no Brasil (depois da pandemia nos tornamos o quinto país que mais acessou esse tipo de plataforma). Sem esses trabalhadores, as IAs – dos sistemas de moderação aos chatbots – não existiriam ou seriam muito, muito ruins. Mas as big techs continuam escondendo quem realmente mantém seus sistemas funcionando.
A importância dessas regras e limites vai além da disputa trabalhista. O impacto é também na qualidade das tecnologias que nós usamos todos os dias.
Eu já escrevi sobre os brasileiros que faziam fact-checking para a Meta por 40 centavos por post – e, sem treinamento adequado, tinham que fazer moderação de conteúdo de temas extremamente sensíveis como as enchentes do Rio Grande do Sul, com pouco mais de um minuto para avaliar cada post. Trabalhadores do Quênia já contaram que têm acesso a informações íntimas gravadas por usuários do RayBan da Meta.
Embora a indústria publicamente esteja enxugando seus quadros humanos para substituir por IA, nos bastidores, em longas cadeias terceirizadas, a demanda por trabalho aumenta – só que precarizado, mal pago e escondido. Sem essas pessoas para gerar, classificar, limpar e organizar os dados, esses sistemas simplesmente não funcionam. Se alimentados apenas com dados sintéticos – ou seja, gerados por IA – eles colapsam.
Por isso, o trabalho humano é parte essencial na equação. E a indústria que oferece esse trabalho para big techs está bombando: a projeção é que ela cresça 10 vezes entre 2024 e 2034, atingindo mais de 10 bilhões de dólares de lucro. Mas, mesmo assim, essas empresas seguem sem fornecer condições mínimas de trabalho decente, como mostrou um relatório de 2025 da Fairwork, organização que monitora condições de trabalho em plataformas digitais.
Os trabalhadores de dados enfrentam desafios comuns a outros da chamada gig economy, como entregadores e motoristas – gestão algorítmica e horas de trabalho não remuneradas, por exemplo. Mas têm também desafios extras. Muitos, por exemplo, têm seus pagamentos retidos, ou sequer ganham salário – apenas vale-compras nas plataformas nas quais trabalham. Também são desumanizados, não têm perspectiva de crescer e têm seu trabalho invisibilizado por acordos de confidencialidade. E, isolados, ainda são expostos a conteúdos traumáticos e violentos de maneira sistemática.
Neste momento, no entanto, há uma oportunidade para melhorar a dignidade desses trabalhadores essenciais para a indústria de tecnologia: a votação da Convenção sobre Trabalho Decente na Economia de Plataformas proposta pela Organização Internacional do Trabalho, a OIT.
A Convenção prevê alguns avanços num campo que hoje é totalmente desregulado. Por exemplo: determina transparência nos termos de contratação e tomada de decisão automatizada e define que o trabalho seja sujeito às leis do país onde é realizado.
Mas, mostrou um relatório do DAIR Institute, que realiza pesquisas sistemáticas com os trabalhadores de IA, a Convenção deixou de fora questões essenciais. Por isso, o instituto propôs recomendações, como mencionar explicitamente a saúde mental, limitar o uso de acordos de confidencialidade, definir o tempo remunerável de modo a incluir atividades de treinamento, espera e preparação essenciais ao trabalho em plataformas, ampliar a revisão humana para rejeições de tarefas e promover o trabalho decente por meio do reconhecimento de competências.
Outras organizações, como a Privacy International, também fizeram uma série de recomendações, como garantir salários justos e proteção social aos trabalhadores, independentemente de seus vínculos trabalhistas.
A luta por melhores condições de trabalho é essencial, mas a importância dessas regras e limites vai além da disputa trabalhista. A dignidade desses trabalhadores impacta na indústria de tecnologia, incluindo os produtos que nós usamos (por exemplo, os vieses das respostas do ChatGPT ou o que é removido ou não pela moderação automatizada da Meta que é treinada por esses trabalhadores).
No ano passado, 65 países aprovaram na OIT a construção de uma convenção internacional para regulamentar o trabalho em plataformas, o que é crucial para regular uma cadeia de trabalho transnacional como a da IA. E esta semana, em Genebra, a 114ª Conferência Internacional do Trabalho vota o texto final.
Você provavelmente não vai ver os trabalhadores de dados tomando as ruas, marchando, ou se manifestando publicamente. Mas o que for decidido agora pode determinar se o trabalho que sustenta a inteligência artificial vai continuar sendo precarizado, invisibilizado e silenciado – ou se finalmente vamos ouvir e garantir dignidade às pessoas que mantém as máquinas funcionando.
Por Tatiana Dias


