Adriano contra a Meta
A inacreditável censura da Meta a um dos melhores jornalistas do país.
Queridas leitoras e leitores,
Hoje apresentamos o Arquivo de Danos Digitais, o ADD+, o nosso projeto para documentar danos e conectar vítimas com quem pode oferecer suporte jurídico. E, nessa estreia, trazemos um caso que não é apenas absurdo porque revela a arbitrariedade das decisões tomadas pela Meta – mas também porque mostra o quão grave é estarmos dependentes e reféns dessas plataformas, especialmente para uma atividade de alto interesse público como o jornalismo investigativo.
Adriano Wilkson é um dos melhores jornalistas do país. Publicou reportagens históricas e premiadas na Folha e no UOL, escreveu um livro, e produziu um podcast investigativo sobre Robinho. Hoje, ele atua de forma independente e publica as suas reportagens nas redes sociais. Foi lá que ele revelou histórias que estremeceram o Pará, seu estado natal, como suspeitas de contratos superfaturados.
Foi assim, de reportagem em reportagem – jornalismo mesmo –, que ele conseguiu mais de 90 mil seguidores nas redes. Em tempos em que o público confia cada vez menos no jornalismo, é um fenômeno. Mas o Adriano incomodou muita gente com suas investigações, e já havia sido censurado pela justiça, que determinou a remoção de seus conteúdos do ar, em fevereiro, após um processo movido pelo prefeito de Belém, Igor Normando.
O que aconteceu agora, porém, vai além disso. Porque envolve uma rede de silenciamento e a cumplicidade da Meta. A big tech diz que protege a segurança de jornalistas e comunicadores, mas apagou todo o trabalho que Adriano vinha construindo até agora, e também o seu meio de sustento.
Adriano tinha recebido, acredite se quiser, notificações de remoção de conteúdo por violações de direitos autorais – falsas, segundo ele. E os pedidos vinham de perfis e páginas obscuras de fora do Brasil. Em vez de analisar direito, a Meta fez o caminho mais fácil: primeiro, enviou notificação; logo depois, simplesmente deletou o perfil dele. O trabalho evaporou.
Zuckerberg falou sobre os “tribunais secretos de censura” na América Latina. Parece que os tribunais estão dentro de sua própria empresa.
Se você já tentou denunciar qualquer perfil racista, misógino, com golpes, incitação à violência ou transtornos alimentares, sabe que não é nada fácil derrubar uma página. No caso do Adriano, bastaram meras notificações de violação de direitos autorais para que isso acontecesse. Sem explicação, sem direito a recurso, e sem nenhum ser humano para atender do outro lado da linha e reverter o prejuízo.
Para a Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a censura da Meta configura um ataque à liberdade de imprensa, o dever de informar e o direito de ser informado. A entidade enviou à Meta um pedido para que o perfil seja restabelecido, mas ainda não houve retorno.
No começo de 2025, Mark Zuckerberg falou sobre os “tribunais secretos de censura” na América Latina. Bom, parece que os tribunais estão dentro de sua própria empresa.
A CTRL+Z está acompanhando o caso e manifesta solidariedade ao Adriano Wilkson, que gravou um vídeo contando a sua história para o ADD+. Spoiler: não foi o primeiro problema dele com a Meta.
Sobre o Arquivo de Danos Digitais
O caso de Adriano contra a Meta está longe de ser isolado. Mas qual é o tamanho desse problema? Quantos Adrianos existem no Brasil? Como decisões arbitrárias como essa podem afetar jornalistas, comunicadores e criadores de conteúdo que confiaram na plataforma para tirar o seu sustento?
É para documentar esses casos e começar o trabalho de lutar pelos direitos das vítimas que lançamos o Arquivo de Danos Digitais. Como costumamos dizer: um caso é só um caso, mas muitos casos são evidência. Aqui, as vítimas não são ‘usuários’ – são seres humanos com rosto, história e danos reais.
Toda semana nós vamos contar uma dessas histórias. E, nesta primeira fase, com um formulário, vamos colher relatos e conectar vítimas de suspensões, bloqueios e violações de direitos por plataformas digitais com quem pode oferecer suporte jurídico se houver interesse.
Acesse o Arquivo de Danos Digitais.


