Apresentamos a Cartilha de Lobby das Big Techs
Expor, entender e combater: é assim que desmontamos a máquina de influência.
Como pode ser tão confortável para as big techs exercerem seu poder de influência entre autoridades, políticos e reguladores? As estratégias são muitas: são “estudos” encomendados, emendas parlamentares escritas por lobistas, ex-funcionários do governo sendo contratados. São happy hours, fotos orgulhosas de profissionais da área de ‘policy’ das big techs com representantes do governo. São camarotes open bar. E zero constrangimento.
Nós acreditamos que é fundamental expor como opera essa estrutura de influência. Ela é sofisticada, profunda e ao mesmo tempo quase invisível: não há dados sobre gastos ou o tamanho dessa indústria no Brasil. O que a gente sabe é que no nosso país há um lobista para cada sete congressistas e quase duas mil ações de influência mapeadas pela investigação A Mão Invisível das Big Techs.
Nos lugares em que a conta é feita, dá para entender seu tamanho: nos EUA, foram US$ 50 milhões gastos em lobby pelas big techs só em 2025. Na Europa, foram 35 milhões de euros – mais de 200 milhões de reais. O setor de tecnologia gasta mais em lobby do que petroleiras e farmacêuticas.
A classe política precisa estar crítica, atenta e ouvir o que a população brasileira quer, não os bilionários do Vale do Silício e seus porta-vozes simpáticos que circulam em Brasília.
Suas estratégias de captura e influência repetem as de outras indústrias. Só que as big techs ainda têm dois componentes fundamentais que as torna ainda mais poderosas: a percepção pública sobre elas e o controle das narrativas. Afinal, elas controlam, também, a própria infraestrutura de comunicação.
Em fevereiro deste ano, a SOMO, uma organização holandesa que investiga grandes corporações, publicou uma série expondo como opera o lobby das big techs pelo mundo. Analisando seis regiões – Austrália, EUA, Quênia, Europa, Índia e, claro, Brasil – as pesquisadoras constataram que as big techs seguem uma espécie de cartilha, repetindo as mesmas práticas por onde passam. Porque funcionam.
São práticas que conhecemos bem, como instrumentalizar suas plataformas, controlar as narrativas, criar câmaras de eco, usar Donald Trump para chantagear os governos e fazer alianças com a extrema-direita.
Parece um poder difícil de combater, e é. Mas, nos lugares analisados, também foi possível constatar uma série de contra-estratégias que a sociedade e reguladores do mundo usaram para resistir a essas investidas agressivas das empresas de tecnologia. O caso do ECA Digital aqui no Brasil, por exemplo, é um deles: a sociedade civil organizada soube aproveitar um momento de comoção para impor uma derrota às big techs e estabelecer regras mais duras para proteger crianças e adolescentes online.
O resultado foi publicado na Cartilha de Lobby das Big Techs, em inglês, e nós decidimos trazer esse material aqui para o Brasil. Agora, as estratégias e as contra-estratégias estão disponíveis em português e serão base para uma série de ações da CTRL+Z nas próximas semanas.
Porque, como mostra a Contra-estratégia #1, o lobby gosta de operar nas sombras. E nós precisamos expor como funciona essa máquina de influência. Entender seus mecanismos e identificar quando ela está em ação. Precisamos pressionar nossos legisladores e políticos – eles respondem para nós, não para eles.
A classe política precisa estar crítica, atenta e ouvir o que a população brasileira quer, não os bilionários do Vale do Silício e seus porta-vozes simpáticos que circulam em Brasília. Expondo como operam, a gente cria uma espécie de vacina: uma vez que você enxerga essas práticas de influência como lobby, você nunca mais vai comprar esse discurso.
“As experiências do Brasil mostram como as big techs transformam o seu controle sobre plataformas numa arma para impedir a adoção de leis que protegem pessoas e democracia. É um exemplo grave”, diz Margarida Silva, pesquisadora da SOMO. “A única forma de rebater é nos unindo, aprendendo uns com os outros. É por isso que ficamos tão felizes por colaborar com a CTRL+Z, uma organização que defende e organiza pessoas diretamente para retomar a internet”.
Nós esperamos que esse material, cedido gentilmente pela SOMO, funcione como essa imunização. Espalhe por aí.
Vá mais fundo:
A semana na CTRL+Z:
No Arquivo de Danos Digitais, divulgamos o caso do jornalista Lucas Veloso, cofundador da Agência Mural. Ele foi acusado injustamente de um crime, teve sua imagem e seus dados expostos em uma ação racista e articulada nas redes da Meta. O que a empresa fez? Nada. Nós estamos acompanhando o caso.
A revista Superinteressante publicou uma boa reportagem sobre as bizarras ideologias do Vale do Silício. A gente sempre diz que não dá para separar essas empresas e seus tech bros de suas ideologias – por isso, vale muito ler para entender como chegamos aqui (a CTRL+Z participou também!).
Também fomos destaque em uma reportagem do Jornal da Tarde da TV Cultura, na Latam Journalism Review e em vários veículos de Portugal.


