Carta do Conselho Fundador da CTRL+Z
Trajetórias diversas, uma briga e muitos sonhos em comum.
Hoje nasceu a CTRL+Z. E esse nascimento não é trivial. É fruto de um longo debate, trabalho duro e muitas cabeças inquietas diante do mesmo problema: as big techs acumularam um poder econômico e político inaceitável e estão nos colocando em risco. Precisamos fazer alguma coisa.
Foram meses de inúmeras conversas e reuniões, juntando apoio de muitos aliados que nos ajudaram a entender o nosso caminho e chegar até aqui. Hoje, a CTRL+Z é formada por 14 pessoas: cinco na equipe inicial e nove no conselho fundador. Temos trajetórias muito diversas, mas uma coisa em comum: estamos dispostos a comprar essa briga contra as big techs. Uma briga que talvez seja o maior desafio dos nossos tempos.
Viemos da comunicação, da academia, do direito, da sociedade civil e da própria indústria de tecnologia. Temos três ex-funcionários de big techs entre nós, além de ativistas, jornalistas e pesquisadores com vasta experiência nesse setor. Esses muitos anos de vivência dentro e fora dessas empresas nos ensinaram como a máquina funciona.
Quem esteve lá dentro sabe: as mudanças são difíceis – e elas só acontecem quando há pressão do lado de fora. Essa perspectiva é fundamental na nossa existência, e guia a nossa busca por tecnologias que realmente estejam a serviço da sociedade. Porque não somos contra as tecnologias; somos contra as tecnologias que essas empresas tentam nos impor para extrair nossos dados e nossa atenção sem qualquer preocupação com o nosso bem-estar individual ou coletivo.
A apatia paralisante que nós sentimos diante dessas empresas é parte do seu projeto.
Enquanto vendem a ideia de que podem resolver todos os problemas sociais usando tecnologia, essas corporações enriquecem poucos tech bros e pioram a vida da maioria das pessoas. As redes sociais hoje são a nossa praça pública, mas o controle desse espaço está nas mãos de poucas empresas que manipulam o que vemos, o que não vemos, o que compramos e em que acreditamos. Mecanismos de busca priorizam quem paga mais caro e não aquilo que mais interessa aos usuários, e ferramentas de IA vêm cometendo o maior roubo da história ao usurpar a propriedade intelectual de terceiros enquanto declaradamente oferecem à humanidade riscos existenciais.
Nós estamos aqui porque acreditamos em um mundo em que empresas tenham medo do poder de mobilização das pessoas – e não o contrário. A apatia paralisante que nós sentimos diante dessas empresas é parte do seu projeto. Nós queremos ampliar os caminhos para romper essa sensação.
Não podemos ignorar que o maior impacto negativo desse sistema é sentido por quem está mais vulnerável: as crianças e adolescentes, os idosos, as mulheres, as pessoas negras e populações periféricas. Para essa luta fazer sentido, ela precisa incluir e contemplar todo mundo – e esse conselho também foi pensado para garantir que isso aconteça.
Atuar coletivamente é a nossa única opção. E é por isso que temos, entre nossa equipe e conselho, várias pessoas de organizações que já atuam há muitos anos nesse enfrentamento. Nós chegamos para somar. Os desafios trazidos pelo gigantesco poder das plataformas digitais exigem organização e trabalho conjunto da sociedade brasileira, em defesa de nossos direitos fundamentais.
Precisamos disputar o futuro e o que a tecnologia ainda pode ser.
Nesse desafio, recebemos o apoio de diversas organizações. Ressaltamos duas delas: a Luminate, nosso primeiro apoiador filantrópico, e o Instituto Procomum, que ofereceu apoio institucional, possibilitando o nascimento da CTRL+Z.
A partir de agora, nós atuaremos em três frentes: investigações jornalísticas, litígio estratégico e mobilização. Em breve, nosso primeiro projeto estará no ar: uma plataforma para whistleblowers, denunciantes de dentro das empresas de tecnologia. É a primeira no Brasil com esse foco – e, para isso, também contamos com a expertise de veículos de comunicação e organizações que há muitos anos nos alertam para os riscos de hipervigilância e concentração de poder das big techs.
Precisamos de um espaço que conecte conhecimento técnico, mobilização e pressão política coordenada contra o poder das big techs para disputarmos o futuro e o que a tecnologia ainda pode ser. Agora, começamos a construir esse espaço juntos. Esse é só o começo. Vem com a gente?
Um abraço,
Conselho Fundador da CTRL+Z
Bia Barbosa – Jornalista e especialista em direitos humanos pela USP, e mestra em gestão e políticas públicas pela FGV-SP, integrante do coletivo DiraCom e da Coalizão Direitos na Rede
Humberto Ribeiro – Advogado, com MBA em Gestão de Projetos pela USP e mestrando em Direito e Tecnologia pela UFMG, cofundador e Diretor Jurídico do Sleeping Giants Brasil, colunista da Mídia Ninja e cofundador da Teia de Criadores.
Marco Gomes – Diretor da Hike, ex-funcionário da Palantir, fundador da boo-box, é conselheiro e mentor em diferentes organizações e discursou na sede da ONU em NY sobre economia criativa e hack-ativismo.
Maíra Berutti – Diretora executiva da Quid, é comunicóloga especialista em Pesquisa para Comunicações pela ECA-USP, e co-fundadora da Las Escuchadoras, rede de mulheres da América Latina que desenvolvem metodologias inovadoras de escuta digital.
Mari de Paula – Co-fundadora e Diretora Executiva do Instituto Decodifica, é formada em Engenharia de Produção pela UNIRIO, com MBA Jr. em Gestão de Negócios pelo IEG, e pós-graduada em Gestão do Conhecimento e Inteligência Empresarial pela UFRJ.
Marianne Batista – Internacionalista pela USP, mestre em Internacional Affairs pela UCSD e em Ciência Política pela University of Pittsburgh. Foi a primeira brasileira contratada pelo TikTok para desenvolver as regras de moderação de conteúdo no Vale do Silício.
Marie Santini – Professora associada da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É fundadora e diretora do NetLab - Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais.
Pablo Nunes – doutor em ciência política pelo Iesp-Uerj, professor da pós-graduação em urbanismo social do Insper, é diretor do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania e coordenador do O Panóptico.
Pedro Telles – Diretor de programas no Democracy Hub (D-Hub) e professor de Advocacy e Transformações Sociais na escola de Relações Internacionais da FGV, é senior fellow de Equidade Econômica e Social na London School of Economics and Political Science.


