Um grupo de funcionários do bilionário estadunidense Peter Thiel desembarcou em peso em São Paulo em maio deste ano. Um documento interno do hotel Rosewood, obtido pela newsletter Noites Húngaras, identifica nominalmente 15 hóspedes sob o título “Thiel Capital & Presidio One” — uma referência à empresa que administra os investimentos pessoais do cofundador da Palantir e a uma companhia registrada no mesmo endereço da Thiel Capital, em Los Angeles.
A Palantir, co-fundada por Peter Thiel, é uma das empresas mais poderosas e controversas da indústria de tecnologia. A empresa presta serviços de análise de grandes volumes de dados principalmente para governos, militares e serviços de inteligência – inclusive os mecanismos de monitoramento e repressão contra imigrantes nos EUA, o ICE, e alimentando sistemas de Israel para definir alvos palestinos em Gaza. Thiel, seu fundador, é ideólogo e financiador da direita dos EUA – e principal elo de ligação entre a indústria de tecnologia e Trump.
Muito antes que os tech bros abraçassem Trump, Thiel foi pioneiro em ligar o Vale do Silício – que antes se inclinava para os democratas – ao autoritarismo. Em 2009, Thiel escreveu que já não acreditava que “liberdade e democracia” fossem compatíveis, uma declaração que se tornou a referência mais conhecida de seu pensamento político.
Thiel foi um dos primeiros bilionários do Vale do Silício a apoiar Donald Trump, ainda em 2016, e é um dos principais líderes da rede conservadora Rockbridge — grupo hoje no centro de suspeitas sobre uma possível atuação estrangeira na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Oficialmente, o bilionário desembarcou em São Paulo em 30 de abril, segundo reportagem publicada Valor Econômico no início de maio, para um encontro presencial com a equipe da Enter, startup brasileira de inteligência artificial aplicada ao setor jurídico, durante o fechamento de uma rodada de investimentos.
A empresa, que alcançou o status de “unicórnio”, como são chamadas startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, promete usar IA para ajudar empresas a lidarem com o que definem como alto volume de litigância no Brasil. A Enter tem em seu conselho consultivo nomes como o ex-presidente do STF Luís Roberto Barroso e o apresentador e empresário Luciano Huck.
Naquele dia, a Enter promoveu um encontro com CEOs e dirigentes de algumas das maiores empresas do país, segundo seus organizadores. Thiel participou pessoalmente do evento, no qual falou sobre inteligência artificial e temas globais.“A visita foi algo maior do que um único investimento” do fundo de Thiel, escreveu no Linkedin Júlio Vasconcellos, também investidor da Enter.
Não se sabe quem mais estava no evento, e nem quais outros interesses ou encontros Thiel teve no Brasil. Mas nós descobrimos que ele não veio sozinho – pelo contrário, trouxe uma estrutura consigo. O documento interno do Rosewood obtido pela reportagem mostra que, naquele mesmo período, o hotel recebeu 15 hóspedes reunidos sob uma única identificação: “Thiel Capital & Presidio One”.
A lista de funcionários de Thiel que se hospedou no Rosewood chama atenção não apenas pelo tamanho, mas também por quem estava nela. Entre os hóspedes aparecem Hanna Leeke, identificada publicamente como assistente executiva pessoal de Peter Thiel; Andrew Dias, diretor de tecnologia da Thiel Capital; e Kaitlin Leard, também funcionária da empresa.
Thiel avança sobre a América Latina
A movimentação ocorre num momento em que Thiel aumenta sua presença na América Latina. Na vizinha Argentina, ele passou meses deste ano aproximando-se do governo Javier Milei.
Thiel reuniu-se com Milei e integrantes de seu gabinete e comprou uma residência em Buenos Aires. A movimentação do bilionário chegou ao Congresso argentino: parlamentares da oposição realizaram, em agosto, uma audiência de cinco horas para discutir seus interesses no país.
Naquele mesmo mês, documentos apresentados à SEC, órgão regulador do mercado financeiro dos Estados Unidos, revelaram que a Thiel Macro, empresa de investimentos do bilionário, havia comprado cerca de US$ 76 milhões em ações da Vista Energy, produtora de petróleo com forte atuação em Vaca Muerta, principal polo de petróleo e gás de xisto da Argentina.
A controvérsia chegou também às ruas. Manifestantes foram até a mansão comprada pelo bilionário em Buenos Aires para protestar contra sua presença e contra medidas do governo que, na avaliação de opositores, poderiam favorecer interesses de grandes investidores estrangeiros.
A experiência argentina ajuda a dimensionar as perguntas levantadas pela passagem por São Paulo. Thiel, afinal, está longe de ser apenas um investidor do Vale do Silício. Além de apoiador de Donald Trump, é um antigo financiador de J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos. A rede conservadora Rockbridge, co-fundada por Vance, tem Thiel entre seus financiadores de destaque e montou uma infraestrutura de organizações para influenciar eleições, mídia e mobilização política nos Estados Unidos.
O braço tecnológico desse poder é a Palantir, empresa que Thiel co-fundou e que se tornou uma importante fornecedora de sistemas de análise de dados e inteligência artificial para governos e Forças Armadas. A companhia teve investimento inicial da In-Q-Tel, braço de venture capital ligado à CIA, e seus sistemas são utilizados em áreas de defesa e inteligência.
A expansão da Palantir já provoca discussões sobre soberania de dados em outros países. No Brasil, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, vinculado ao Ministério da Educação, utilizou a plataforma Foundry da Palantir a partir de dezembro de 2023, por meio de um contrato firmado com o Serpro; em julho deste ano, o órgão anunciou que estava descontinuando a ferramenta e afirmou que ela havia operado exclusivamente com dados públicos ou passíveis de divulgação.
Já no setor privado, a Globo mantém relação com a Palantir desde 2019 e chegou a estender a parceria para usar a Foundry na integração e análise de seus mais de 2 petabytes de dados.
A atuação da empresa também entrou no radar do Congresso: em fevereiro, o deputado Rui Falcão, do PT paulista, apresentou um requerimento cobrando do Ministério da Fazenda informações sobre contratação, subcontratação ou oferta de sistemas da Palantir no âmbito do Serpro e da administração federal.
Agora, sabemos que, em plena expansão política e empresarial de Thiel na América Latina, uma comitiva identificada diretamente com sua estrutura de investimentos esteve reunida em São Paulo. Pode ser só uma viagem de negócios – o que já deve levantar um alerta. Mas seus investimentos são entrelaçados com a política extremista e com o avanço do tecnofascismo no mundo – e essas são razões fortes o bastante para não ignorar.
A reportagem procurou a Thiel Capital e a Enter para obter mais informações sobre a visita de Peter Thiel ao Brasil, mas, até a publicação deste texto, não recebeu resposta. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.



