‘Estamos na luta para que esse monstro não avance’: a luta contra o data center do TikTok
Áurea Anacé, liderança indígena, explica os impactos do megaempreendimento em seu território no Ceará.
Cara comunidade ctrzeira,
Essa newsletter é especial. Ela foi escrita por Áurea Anacé, liderança do território da Terra tradicional, no Ceará. O povo Anacé está na linha de frente na luta contra o mega data center que o TikTok começou a construir no complexo de Pecém, na cidade de Caucaia.
Feito em parceria com a Omnia, do fundo de investimentos Patria, e a Casa dos Ventos, e com um custo de mais de R$ 580 milhões, o megaempreendimento deve consumir tanta energia quanto uma cidade de cerca de meio milhão de habitantes e 30 mil litros de água por dia. É uma obra que vai impactar profundamente o entorno, que já sofre com escassez hídrica.
Para você ter uma ideia do impacto, os novos data centers previstos no Ceará consomem mais energia do que todo o estado.
Mas os Anacé, comunidade indígena vizinha ao empreendimento do TikTok, não foram nem consultados sobre a obra. Ao tomarem conhecimento do projeto, começaram um movimento de resistência junto com outros moradores locais. Não tem sido fácil: a obra já começou, e Áurea e outras lideranças Anacé, por conta de ameaças frequentes, precisaram ser incluídas no Programa Estadual de Proteção a Defensoras e Defensores de Direitos Humanos.
A história dela é a história de resistência contra uma indústria extrativista, que trata o nosso país como fornecedor de recursos enquanto atropela os nossos povos originários em nome de uma sede de escala e crescimento. Leia, a seguir, o seu depoimento.
Eu sou Áurea Anacé, sou liderança do território da Terra tradicional, do povo Anacé. Sou nora do cacique Antônio. E eu sou uma pessoa que luta pelos direitos do meu povo no nosso território. Luto pela espiritualidade que nós temos, pelos rios, pelas lagoas. Temos um amor muito forte por esse território, é daqui de onde essas pessoas, mulheres, tiram o alimento. A gente vive defendendo essa vida para que as novas gerações tenham um pouco disso tudo.
Como mulher, a gente nunca é escutada primeiro. Então, precisamos que as pessoas nos escutem e compreendam o que estamos falando. Por que nós falamos? Porque nós somos as primeiras que sentimos na pele a mudança do clima, a mudança do território. Quando se mexe no território, quando se mexe com a espiritualidade do nosso povo, nós sentimos muito mais do que os homens.
O povo indígena Anacé ocupa tradicionalmente um território localizado nos municípios de São Gonçalo do Amarante e Caucaia, a oeste de Fortaleza, Ceará, Brasil. Na história oficial, aparecemos como um povo guerreiro, que levantou contra outros povos indígenas, contra os administradores locais da Coroa Portuguesa e contra as estruturas coloniais.
Mais recentemente, com o avanço de grandes empreendimentos na região tradicionalmente ocupada pelos indígenas, especialmente articulados em torno do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, estamos nessa luta contra o data center do TikTok e da Casa dos Ventos.
A realidade é que o território está adoecendo, e nós já estamos doentes por conta disso.
A gente não sabia que ele viria. O pessoal do Instituto Terramar entrou em contato para saber se já tínhamos conhecimento de que esse mega empreendimento estava chegando ao território. Dissemos que não, e mesmo tendo um protocolo de consulta livre e prévia, não fomos consultados.
Logo em seguida, fizemos uma mobilização junto com algumas organizações e fomos à Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Ceará, em Fortaleza, para perguntar o que ia acontecer, quais seriam os impactos e por que não fomos informados. A partir de lá começamos a ter alguns diálogos, conversas, encontros, para entender o que é um data center, quais são os impactos, o que vai prejudicar nosso território.
No território já vivíamos uma dificuldade muito grande com água, pois a gente não tem água, e além disso sofremos quedas de energia frequentes. As dificuldades cotidianas são enormes. Por exemplo, temos crianças com autismo que, no verão, têm um balde de água só para tomar banho, porque não tem água. Começamos a compreender que o empreendimento vai mexer com tudo isso.
Vemos que isso vai adoecer nosso território, além de já estar adoecendo nosso povo. Quando começamos a travar essas lutas, a correr atrás dos nossos direitos, do direito ao território, da demarcação, de existir, de não sair deste lugar, começamos a ser ameaçados, perseguidos e, inclusive, torturados dentro do nosso território.
Quem está dentro dos seus territórios vem sofrendo essas agressões, essa retirada de direitos. E eu sou essa pessoa que procura ajudar a todos e proteger o que nós temos de mais importante, que é o território e a nossa espiritualidade.
Estamos nessa luta para que esse monstro, esse grande empreendimento, não avance, porque agora sabemos quais são os impactos, o que vai causar e quais doenças vai trazer para o nosso povo. Já sofremos com os efeitos de outros empreendimentos e com o turismo dentro do território, que leva nossos jovens e às vezes as empurra para a prostituição. Um mega empreendimento desses, que dizem ser de bilhões e o maior do Brasil, só agrava o que já conhecemos da destruição e do desmatamento. A realidade é que o território está adoecendo, e nós já estamos doentes por conta disso.
Eu tenho o território como parte do meu corpo. Então, quando ele é atacado, eu sinto que o meu corpo está sendo atacado, que meu espírito, que meu corpo-espírito, está sendo atacado. Eu acho que é por isso que, quando eu vejo situações dentro do território, eu ajo de forma brutal, porque eu vou para cima, eu vou pra defender mesmo.
Quando você olha para essas matas e vê árvores sendo derrubadas, carnaúbas que estão sendo derrubadas, águas que estão sendo retiradas, você adoece. Então, empreendimentos que vem avançando, que vem trazendo várias coisas ruins para o território, isso adoece a gente. Isso adoece porque adoecemos primeiro para que depois a Terra adoeça. Como se a gente sentisse, e ela nos avisasse.
Porque a gente vê eles destruindo, devastando tudo e a gente não poder ajudar porque dizem que a terra não é nossa. A gente sente os bichos, as matas pedindo ajuda. A gente escuta eles e não poder fazer nada, é muito desesperador, gente! Eu sinto que a terra, no momento em que uma empresa vem, derruba e destrói. A gente adoece e sente como uma forma deles [os encantados, os bichos] pedirem ajuda e a gente tem que poder fazer alguma coisa.
Está tendo muita coisa dentro do nosso território, muita, muita, muita destruição. Muita troca de corpo e de espírito por moedas de ouro, por, como o cacique Roberto fala, por espelhos. Há 500 anos, eles invadiram o nosso território e fizeram assim.
Precisamos garantir que a tecnologia seja utilizada como instrumento de fortalecimento, e não de substituição, da cultura indígena.
Para os Anacé, a água e a terra não são meros recursos postos à distribuição e à mercê do capital. São seres com agência para articular ações no mundo. São seres que sentem dor e podem gerar dor.
O Cacique Antônio falava que ia ter o tempo dos gafanhotos aqui dentro, e esse empreendimento tem um monte de luz. Os gafanhotos da noite brilham junto com alguns bichos, como os vagalumes. Nesse sentido, sabemos quais são os animais que causam mal e que atraem doença, e é por isso que ficamos preocupados com tudo isso. Também adoecemos espiritualmente quando vemos nosso território sendo atacado e invadido.
Nas comunidades indígenas, o uso do TikTok e de outras redes sociais também tem provocado impactos, especialmente entre crianças e jovens. Sabemos que a tecnologia possibilita o acesso à informação, à comunicação e ao fortalecimento da identidade por meio da divulgação da cultura, mas seu uso excessivo pode contribuir para o afastamento das práticas tradicionais, da convivência comunitária, da oralidade e dos conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.
Por isso, entendemos que é preciso que o acesso às plataformas digitais ocorra de forma equilibrada, com a participação das famílias, das escolas e das próprias comunidades, respeitando os valores culturais de cada povo e garantindo que a tecnologia seja utilizada como instrumento de fortalecimento, e não de substituição, da cultura indígena.
A gente tem que fazer diálogo, mas também fechamento de rodovias para fazer eles nos ouvirem. A gente precisa mobilizar o povo e ir para as ruas mesmo, dizer que nós estamos aqui e nós precisamos ser ouvidos. Então, com toda essa força que não é só do cacique, mas de todo o povo, a gente tem feito que pessoas nos escutem, que o governo nos escute e que pessoas também viessem para conversar com a gente, para se somar à luta.
A gente diz aquele toré: “Bambeia, mas não arreia”. E nós estamos firmes e fortes aqui.
*Áurea e outras lideranças indígenas Anacé são incluídas no Programa Estadual de Proteção a Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, por conta de ameaças que vivenciam cotidianamente às suas vidas pela defesa do território.




