‘Mac da periferia’: o paulistano que desafiou a Apple
A gente poderia ter o nosso Steve Jobs. Mas os EUA não deixaram.
E se eu te dissesse que esse paulistano poderia ter sido o nosso Bill Gates? Ou o nosso Steve Jobs?
Que ele tinha uma empresa na Freguesia do Ó, Zona Norte de São Paulo, que fazia versões brasileiras dos computadores da Apple, sem licenciamento? E que essa empresa fabricou o primeiro clone de Macintosh do mundo? Um clone que desencadeou uma guerra comercial entre Brasil e EUA e resultou numa ameaça de tarifaço do Reagan contra o governo Sarney igualzinha a esse do Donald Trump contra o governo Lula.
Pois é. Esse cara foi Geraldo Antunes, cofundador da Unitron, que, nos anos 80, liderou uma das principais fabricantes de computadores do Brasil.
Sua história com a Unitron começou na década de 1970, quando a empresa ainda fabricava lâmpadas. Depois de realizar um projeto de iluminação para o metrô de São Paulo, ela cresceu, e Geraldo, fascinado por um Apple II trazido dos EUA por um amigo, começou a montar uma equipe de engenheiros e hackers para fazer engenharia reversa do computador. Eles desmontaram a máquina, estudaram seus componentes e criaram um Apple brasileiro. E tudo isso era aprovado e incentivado pelo governo brasileiro. Em plena Guerra Fria, a Unitron quase chegou a exportar seus clones paulistanos de Apple II para a União Soviética.
Em 1985, eles deram um passo ainda mais ousado: criaram o primeiro clone funcional do Macintosh do mundo, o Mac 512. E foi aí que a guerra começou.
A Apple iniciou uma campanha internacional contra a empresa. Fez um lobby pesadíssimo, mobilizou políticos nos congressos dos EUA e do Brasil e disseminou mentiras para destruir a reputação da Unitron. A mídia passou a chamar o computador de “Mac da Periferia”, quase como forma de ridicularizar a ideia de que um bairro periférico de São Paulo pudesse produzir tecnologia de ponta.
Depois que o nome pegou, a revista Veja publicou a história de que um representante da Apple teria sido sequestrado na Avenida Paulista e levado a algum lugar da periferia, onde teria sido ameaçado com uma arma apontada para a cabeça — dando a entender que a Unitron estaria por trás do caso.
Enquanto isso, o governo Ronald Reagan pressionava o Brasil, ameaçando usar a Seção 301 para aplicar sanções comerciais ao país — o mesmo dispositivo jurídico usado hoje pelo governo Trump em seu tarifaço.
A grande ironia é que, enquanto chamavam Geraldo de pirata, chegando a divulgar uma imagem do Mac da Unitron com uma bandeirinha, nos EUA as empresas clonavam umas às outras. A Compaq nasceu da engenharia reversa do IBM PC, e o próprio Macintosh, de uma cópia descarada da interface do Xerox Alto.
A China construiu boa parte de sua indústria aprendendo com tecnologias estrangeiras: copiando, entendendo seu funcionamento e melhorando. Esse sempre foi um dos caminhos mais comuns do desenvolvimento tecnológico — e continua sendo até hoje.
O problema era que quem copiava era um brasileiro, num momento em que o Brasil se projetava em direção ao futuro, produzindo sistemas operacionais, computadores, videogames, redes interconectadas, como o Ciranda, da Embratel, e até uma espécie de internet da Telebrás, acessada pela TV da sala ou por terminais públicos. Tudo isso alimentava uma forte cultura tecnológica que ameaçava os interesses dos EUA, mais interessados em ocupar o mercado brasileiro com seus produtos do que em competir com os nossos.
Assim, transformaram a Unitron em um alvo exemplar para retaliar a indústria brasileira, aproveitando-se de uma economia já fragilizada pela hiperinflação herdada da recém-extinta ditadura.
A história esquecida de Geraldo diz muito sobre um Brasil que ainda precisa aprender a valorizar suas narrativas e seus protagonistas.
Diante das ameaças dos EUA, diferente do que aconteceu agora com o governo Lula, o governo do Sarney cedeu, passou a perseguir a empresa de Geraldo e criou entraves à liberação de componentes, estrangulando a operação da Unitron e de outras empresas nacionais. Poucos anos depois, no fim da década de 1980, após a pressão americana, o viralatismo do governo Sarney e sucessivos planos econômicos fracassados, não restou quase nada da indústria brasileira de computadores.
A trajetória da Unitron, de certa forma, retrata a própria história da tecnologia brasileira. Depois de dar o salto para a fabricação de computadores, a empresa foi impedida de avançar e acabou regredindo ao ponto de partida, quando fabricava produtos muito mais básicos: lâmpadas, algo que ela produz até hoje. Uma delas, inclusive, leva o nome Mac 512, em homenagem ao futuro que ela nunca pôde construir.
Geraldo, por sua vez, encarnou a ambição de um Brasil que se recusava a depender apenas da tecnologia estrangeira, mas acabou perseguido, silenciado e, por fim, esquecido. Eu fui uma das últimas pessoas a entrevistá-lo. Quando Geraldo faleceu, no fim de 2025, sua morte não virou notícia. E esse silêncio diz muito sobre um Brasil que ainda precisa aprender a valorizar suas narrativas e seus protagonistas.
A questão agora é: quem hoje vai lutar pela soberania brasileira, colocando os nossos interesses à frente dos EUA nas próximas eleições?
Por Henrique Sampaio (originalmente publicado em vídeo no Instagram).



Uma história e tanto.
sarney foi mesmo um sarney...
Que está bela história ilumine Dom Lula.
Eu não fazia ideia dessa história. Infelizmente é sobre algo que se repete muito na história brasileira, temos grandes cabeças aqui e, muitas vezes, com opções que vão baratear o custo final do produto.