Uma mulher foi acusada de envolvimento com organização terrorista. Perfis de diretórios acadêmicos foram removidos às vésperas de atos políticos. Outros perfis de coletivos ativistas e de um sindicato de jornalistas foram banidos sem direito à apelação. Quatro pessoas foram acusadas injustamente de exploração sexual infantil. Todas essas pessoas haviam postado conteúdos pró-Lula em seus perfis no Instagram nos últimos dias.
Há algo acontecendo nas redes da Meta – às vésperas do segundo turno das eleições no Brasil. Centenas de pessoas tiveram suas contas restritas, sem poder repostar ou mandar mensagens, ou relatam que suas postagens não estão com o mesmo alcance de antes. Nós começamos a documentar o que está acontecendo, e o resultado preliminar é revelador. Até agora, já são mais de 1,1 mil relatos de bloqueios, posts removidos, restrições de funcionalidades e queda de alcance, com falhas sistemáticas de moderação.
Diante dessa situação, é preciso dar o próximo passo: pressionar as autoridades e a Meta para garantir transparência, restaurar contas e conteúdos removidos indevidamente, proteger jornalistas, veículos e movimentos sociais, garantir um canal de apelação e impedir a prática de shadowban. A situação é grave e agir é urgente. O tempo é curto.
Por isso, a CTRL+Z lança a campanha Meta, tira a mão da nossa eleição, em que todos os brasileiros podem assinar uma petição para pressionar o TSE para que tome uma atitude e obrigue a Meta a prestar esclarecimentos, e oferece o Kit Derrubada, com instrumentos para ajudar os perfis afetados a reclamarem junto a autoridades competentes.
Em um momento em que se discute a influência dos EUA nas eleições brasileiras, e considerando o alinhamento da big tech a Donald Trump e o histórico da Meta em interferir em processos eleitorais, essas são medidas urgentes para garantir um processo eleitoral isonômico e verdadeiramente livre.
O que os dados revelam até agora
A CTRL+Z coletou, até o momento, mais de 1,1 mil relatos de brasileiros que foram afetados por ações de censura, banimento da conta, restrições ou queda de alcance no período eleitoral. 98% deles são relacionados ao Instagram – que é, também, a rede social mais usada pelos brasileiros para se informar. Os casos são relacionados principalmente a perfis de apoio a Lula, e impactam diretamente a articulação da campanha.
A maioria dos afetados são cidadãos comuns, mas há dezenas de influenciadores, comunicadores, pesquisadores e movimentos estudantis e sociais. Casos também revelam falhas graves na moderação e aplicação irregular da lei eleitoral.
O levantamento foi feito por meio de denúncias que chegaram aos canais de CTRL+Z – e-mail e formulários – e também com busca ativa em redes sociais, imprensa e comentários, a partir de segunda, 5 de outubro.
Entre os dados coletados até o momento, há três tipos principais de denúncias categorizados: supressão de alcance, restrições de funcionalidade e os mais graves: banimentos de contas e censura de postagens.
Os casos de supressão de alcance (perda de alcance + downrank na busca) são a maior fatia das denúncias, com 36%. Essa é, também, a forma mais silenciosa e difícil de provar de interferência. Além de usuários comuns, perfis grandes e verificados relatam terem sido afetados por uma diminuição brusca no alcance de suas postagens. É o caso do próprio perfil @lulaoficial, com números anômalos: um reel, por exemplo, atingiu 783 mil curtidas, mas apenas teve 679 mil visualizações – isso em um perfil com 16,9 milhões de seguidores. A influenciadora Gabriela Prioli também mostrou o caso de um vídeo que passou de 12,7 milhões de visualizações às 19h49 para 1 milhão às 22h28. O músico Baco Exu do Blues também relatou baixas visualizações. Na quinta-feira, 8, a Meta admitiu que houve falha na contagem de visualizações dos vídeos, sem mais explicações ou remediações.
Restrições de funcionalidade (conta, repost, comentário, impulsionamento, bloqueio) vêm logo depois, com 32%. Nesses casos, a conta existe mas fica parcialmente inutilizada. É o caso do perfil @eutocomlula, utilizado na campanha, que ficou impedido de mandar mensagens a uma semana do primeiro turno. O professor João Cezar Castro Rocha também relatou que seu vídeo criticando a campanha de Flávio também ficou com a qualidade restrita, sob a alegação de “conteúdo não original, de baixa qualidade e de QR Code”. O perfil verificado @0gabrielpereira também foi restrito após divulgar informações sobre os atos em apoio a Lula em Belo Horizonte.
Banimentos (conta, post ou comentário) somam 22% das denúncias. Desses, 148 são casos de banimentos ou bloqueios de contas – o mais grave tipo de punição e 13% do total. Os alvos incluem entidades estudantis de pelo menos cinco estados (DCEs da UFPR e UTFPR, UPE Paraná, UCE Santa Catarina, AERJ, diretórios da UFRGS, PUC-RS e UFMG), movimentos sociais (MST Pará, PSOL Floripa, Coletivo Artêmista, Coletivo Maré 0800), veículos jornalísticos e ligados a jornalismo, como o perfil do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, e muitos cidadãos comuns. Dos banimentos de conta, 16 são de perfis que aparecem na ação judicial movida pela campanha de Flávio Bolsonaro, que pediu ao TSE a suspensão de contas de uma rede de 1.525 perfis pró-Lula. Nesta categoria também estão perfis que tiveram postagens removidas, como o pesquisador Orlando Calheiros, o jornalista Guilherme Amado, que teve um vídeo crítico a Flávio bloqueado sem explicação, Eduardo Moreira, que teve o vídeo “desmascarando Flávio” bloqueado (e depois repostado), a Mídia Ninja, que teve um post sobre embaixada dos EUA restrito sob alegação de legislação eleitoral e a vereadora Maíra do MST, que teve um post de mobilização removido.
Movimentos estudantis e sociais têm punição mais dura
O levantamento inclui até o momento 48 casos de páginas ligadas a jornalistas, movimentos sociais e estudantis. Em comum, eles têm uma taxa maior de banimentos – mais da metade dos casos são de páginas apagadas ou posts censurados.
São casos ligados a movimentos sociais, que afetaram organizações como MST Pará, MTST Formação, PSOL Floripa, Coletivo Maré 0800 e Coletivo Artêmista. Este último é um ponto de cultura LGBTQIAP+ que existe há mais de 10 anos, que teve várias contas derrubadas simultaneamente. A justificativa: “conteúdos contra as políticas de cunho sexual.”
O movimento estudantil, que convocou uma série de atos em apoio a Lula no segundo turno, também foi particularmente afetado pela onda de remoções. Os casos incluem banimentos coordenados em ao menos 8 entidades: DCE UFPR, DCE UTFPR, UPE Paraná (@upeparana), UCE Santa Catarina (@ucenasruas), Diretório Acadêmico Alfredo Balena/UFMG, diretórios da UFRGS e da PUC-RS, e a AERJ (Associação Estadual dos Representantes de Estudantes do RJ).
Justificativas da Meta revelam erros de moderação
Identificamos entre os casos ao menos 20 justificativas genéricas da Meta. Nenhuma individualiza a conduta, identifica o trecho violador ou oferece recurso efetivo.
As justificativas se contradizem entre si (o mesmo tipo de conteúdo é removido ora por “Resolução Eleitoral”, ora por “padrões de comunidade”, ora por “exploração sexual infantil”), o que indica que não há critério estável.
Em nenhum dos casos que contém a resposta da Meta houve explicação de qual conteúdo violou qual regra.
A Resolução Eleitoral 23.755/2026 foi usada como justificativa em 10 dos casos documentados. Os autores das postagens, entretanto, negam que tenham violado as regras e negam o uso de IA para produzir deepfakes. Mas a resolução regula propaganda eleitoral irregular, e não opinião política.
Sem transparência sobre os critérios de aplicação das regras, a Resolução Eleitoral foi aplicada como mecanismo de restrição de conteúdo político legítimo – não de desinformação. Os casos documentados removidos com essa justificativa incluem, por exemplo, uma reportagem sobre o fechamento da embaixada dos EUA.
Em outros casos, a Meta justificou, de forma genérica, que estava restringindo contas para “proteger nossa comunidade”, sem individualizar qual o conteúdo e a violação. Em outros quatro, a justificativa foi que verificadores apontaram a informação como falsa (entre eles, uma foto da BBC Brasil de uma manifestação pró-Lula).
Mas os erros mais graves estão nos casos que foram erroneamente classificados como crimes. Uma usuária teve suspensas suas contas em serviços da Meta por suposto envolvimento em atividades terroristas.
Outras três contas foram associadas à exploração sexual infantil. Em um deles, o usuário foi banido com essa justificativa após postar sobre o incêndio que atingiu a UFPE.
Ou os sistemas têm falhas estruturais ou, pior, há o uso deliberado de categorias graves para justificar remoções que de outra forma seriam injustificáveis. Em muitos casos os banimentos não contaram com explicações da empresa, como o caso dos DCEs da UFPR e UTFPR, o que contraria o Marco Civil da Internet.
As consequências
Além dos danos ao processo eleitoral e ao direito dos cidadãos de se manterem informados, com isonomia entre os candidatos, a onda de censura privada também tem uma série de consequências aos usuários.
Mais de 50 casos relatam danos financeiros diretos, como a derrubada de páginas que eram fonte de renda para seus criadores. Há outros 29 casos com danos organizacionais, em que comunidades e movimentos sociais e políticos perderam seus pontos de contato com o público.
Vários perfis relataram a necessidade de migrar de contas, o que fragmenta comunidades, dilui audiência e impõe custos de reconstrução que favorecem quem tem mais recursos.
Ainda há o efeito de autocensura, com usuários receosos de se manifestar livremente por medo de perderem engajamento ou terem suas contas afetadas. Ao menos 20 relatos mencionam esse efeito.
Nós perguntamos à Meta quantas contas e publicações no Brasil foram afetadas neste período eleitoral, se a empresa planeja divulgar um relatório, como funcionou o processo de moderação e se houve denúncias em massa sobre as contas afetadas, entre outras questões. A empresa questionou o fato de não ter tido acesso ao levantamento completo, e respondeu que “uma amostragem selecionada de forma intencional não reflete o alcance e o rigor do nosso trabalho de moderação de conteúdo, cujo objetivo é garantir a isonomia no uso de nossas plataformas para todos. Atuamos em conformidade com a legislação aplicável e as normas eleitorais”.
Kit Derrubada: o que você pode fazer?
Diante desse cenário, a CTRL+Z disponibiliza aos brasileiros dois caminhos de ação:
1) Uma petição online, que está juntando assinaturas para pressionar o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a adotar medidas que garantam o fim das remoções arbitrárias de conteúdo político, e maior transparência da Meta sobre a mediação algorítmica nas suas plataformas. As assinaturas, junto com os casos coletados durante o período eleitoral, serão entregues diretamente para o TSE na semana que vem.
2) O Kit Derrubada, com modelos de reclamações junto aos órgãos de defesa do consumidor e a ANPD para que os casos sejam escalados e as contas restabelecidas. O kit tem ainda um modelo de petição junto ao Juizado Especial Cível.
Entre os casos documentados, pelo menos dois usuários recorreram à justiça e conseguiram ter suas contas restabelecidas.
O monitoramento segue durante toda a eleição. Casos são cadastrados por meio do Kit Derrubada, pelo Arquivo de Danos Digitais, pelo e-mail denuncia@ctrlz.org.br e por busca ativa de postagens e comentários em redes sociais.



