Registros internos da Meta obtidos pela CTRL+Z revelam uma sucessão de falhas que prejudicaram o perfil de Luiz Inácio Lula da Silva no Instagram durante a reta final da campanha presidencial. Os problemas, que afetaram apenas a conta de Lula e não a de Flávio Bolsonaro, incluíram comentários que não apareciam, stories que duravam apenas seis segundos ao serem compartilhados, e o perfil de Lula não aparecer na busca – problema que deveria ter sido corrigido, mas persistiu, mostram os relatos.
Um relatório interno datado de 19 de outubro registra ao menos seis problemas classificados como de alta prioridade ainda abertos no Instagram e no aplicativo Meta AI relacionados à conta de Lula. Entre terça (20) e quarta (21), funcionários voltaram a relatar problemas envolvendo a busca pelo perfil de Lula e anúncios – o que, na avaliação de um funcionário ouvido em condição de anonimato, evidencia que a Meta não tratou essas questões com o senso de urgência necessário.
Na semana passada, uma reportagem da Folha revelou que funcionários da Meta admitiram que a conta de Lula foi prejudicada por problemas internos. A empresa soltou um comunicado alegando “incidentes técnicos” e negou favorecer Bolsonaro.
Os novos registros, no entanto, mostram que parte das falhas atingiu especificamente o perfil de Lula por razões inexplicadas, e demoraram dias para serem resolvidos. Em outros episódios, problemas mais amplos da plataforma também afetaram a campanha petista.
Em todos os casos, funcionários estavam cientes de que os problemas violavam a lei eleitoral e mostraram preocupação com eventuais punições do Tribunal Superior Eleitoral, que proibiu a Meta de discriminar candidaturas sob pena de uma multa de R$ 500 mil por dia (depois, elevada para R$ 1 milhão por dia).
Até agora, a Meta não foi punida.
Lula (de novo) não aparece na busca
Um dos episódios mais reveladores envolve o mecanismo de busca do Instagram. Entre 6 e 10 de outubro, a empresa identificou que uma regra técnica exigia a correspondência de pelo menos cinco caracteres para localizar contas de candidatos. Como o nome “Lula” tem apenas quatro letras, a busca pelo nome do presidente não apresentava seu perfil como deveria.
O problema – relatado por pelo menos 11 pessoas à CTRL+Z nos últimos dias – teve uma atualização em 10 de outubro. Os documentos consultados não permitem confirmar quando a correção ocorreu. Segundo reportagem da Folha publicada na sexta-feira, 16 de outubro, funcionários afirmaram que o problema havia sido resolvido.
Mas os registros mostram que a falha persistiu. Um outro funcionário relatou o mesmo problema na terça-feira (20), mostraram os registros. Nós testamos e a busca por “Lula” no mecanismo de busca não retorna o perfil do presidente, enquanto pesquisas pelo nome de Flávio Bolsonaro funcionavam.
A reincidência levanta dúvidas sobre a eficácia das correções adotadas pela companhia e sobre a existência de mecanismos capazes de impedir que falhas semelhantes voltem a acontecer. Para Paul Wash, consultor e empreendedor especialista em segurança e privacidade online, a desculpa é “absurda”.
“O Instagram consegue identificar alguém interessado numa marca específica de tênis de corrida, que mora num determinado CEP e está numa certa faixa etária, e mostrar um anúncio para essa pessoa com base no comportamento dela na internet. Mas a Meta quer que a gente acredite que essa mesma empresa não acha o presidente da República quando alguém digita o nome exato dele na busca do Instagram”, ele escreveu. “Isso tem cara de interferência eleitoral deliberada, e a explicação da Meta sugere que a empresa está tentando esconder o que aconteceu.”
Em seu comunicado divulgado nesta semana, a Meta não mencionou o problema. Ao Tecmundo, a empresa afirmou que não recomenda contas de candidatos na busca para cumprir as normas eleitorais. “Nossas ferramentas de busca não favorecem candidatos específicos”, disse a empresa.
Vídeos de Lula eram cortados para apenas seis segundos
Outro problema identificado internamente atingiu o compartilhamento de vídeos publicados pelo presidente. Em 16 de outubro, a Meta registrou uma falha que fazia com que vídeos de Lula fossem reduzidos a apenas seis segundos quando compartilhados nos Stories do Instagram.
A ocorrência continuava aberta nos registros examinados pela reportagem. Até aquele momento, a empresa não havia apresentado uma explicação conclusiva para sua origem.
O problema tinha consequências diretas para a circulação de conteúdo político: usuários que tentavam compartilhar vídeos do presidente podiam acabar divulgando apenas uma pequena fração do material original.
A reportagem realizou testes para verificar se o problema persistia e constatou que os vídeos publicados no perfil de Lula já podem ser compartilhados nos Stories do Instagram sem a limitação de seis segundos. Isso indica que a falha foi corrigida, embora os registros internos consultados não esclareçam o que provocou o problema nem quais medidas foram adotadas pela Meta para evitar sua repetição.
Comentários no perfil de Lula também foram afetados
Entre 15 e 19 de outubro, funcionários da Meta investigaram problemas na exibição dos comentários publicados nas postagens de Lula. Os registros apontam duas falhas: uma relacionada ao sistema que determina a ordem de apresentação dos comentários e outra envolvendo comentários fixados nas publicações.
As duas ocorrências foram mitigadas. Entretanto, uma configuração identificada internamente como “custom filter”, ou filtro personalizado, permanecia sem explicação conclusiva nos registros analisados.
Filtros personalizados podem ser utilizados pelos próprios administradores de uma conta para limitar a exibição de comentários com determinadas palavras ou provenientes de determinados usuários. Por isso, a existência dessa configuração, isoladamente, não comprova uma intervenção indevida da plataforma.
Ainda assim, os documentos mostram que a Meta investigou problemas de visibilidade dos comentários especificamente no perfil do presidente, sem esclarecer integralmente todos os fatores envolvidos.
Campanha de Lula enfrentou bloqueios na publicidade eleitoral e na geração de imagens por IA
Os problemas não ficaram restritos às funcionalidades públicas do Instagram. Em 23 de setembro, uma conta de anúncios vinculada à coligação de Lula foi desativada. Documentos de planejamento de comunicação da Meta classificaram o episódio como um falso positivo, revertido em poucos minutos.
A explicação interna contrasta com relatos divulgados à imprensa que mencionavam supostas violações das políticas da plataforma. Os registros examinados não esclarecem completamente a divergência.
Entre 7 e 10 de outubro, novos obstáculos impediram a campanha de Lula de veicular publicidade. Dessa vez, os documentos apontam a combinação de uma verificação de segurança da conta com uma falha mais ampla no Gerenciador de Anúncios da Meta.
O problema global afetou aproximadamente 10,8 mil contas de publicidade em diferentes países. A campanha de Lula estava entre as atingidas.
Em 9 de outubro, a campanha petista acionou o TSE e, no dia seguinte, tornou públicas suas reclamações. A Meta respondeu classificando as acusações como infundadas.
Uma pessoa familiarizada com os sistemas da companhia explicou que verificações adicionais de segurança são comuns na publicidade digital e podem ser acionadas automaticamente para prevenir fraudes. Também afirmou que sistemas de elegibilidade para anúncios são administrados por diferentes equipes, o que torna possível a ocorrência de falhas de alcance global.
Nesse caso, a conta de Lula pode ter sido afetada pelo problema mais amplo – que não atingiu da mesma maneira a conta de Flávio Bolsonaro. Os documentos não permitem concluir que todos os anúncios da campanha tenham permanecido indisponíveis durante a totalidade do período investigado.
A sucessão de problemas inclui ainda o funcionamento da inteligência artificial da Meta. Em 14 de outubro, mostramos que a Meta AI impedia a geração de determinadas imagens envolvendo Lula, mas aceitava solicitações semelhantes relacionadas a Flávio Bolsonaro.
Registros internos mostram que a companhia trabalhou em ajustes das proteções aplicadas a candidatos na Meta AI. As correções passaram a abranger os 28 candidatos participantes de segundos turnos eleitorais, segundo a documentação.
O episódio revela uma diferença de tratamento no funcionamento da ferramenta naquele momento, embora os registros não permitam determinar que tenha havido uma decisão deliberada de favorecer uma candidatura.
Suspeitas de tratamento desigual
A Meta tem argumentado que todas as falhas são “técnicas” e que a empresa não atuou deliberadamente para prejudicar a campanha de Lula. Os registros disponíveis mostram, no entanto, que a empresa tinha informações internas sobre a sucessão de problemas e do fato de que elas estavam afetando desproporcionalmente apenas um dos lados – o que viola a lei eleitoral brasileira.
Também mostram que, em alguns casos, os problemas não foram plenamente resolvidos, ainda que estivessem marcados como alta prioridade diante dos riscos jurídicos. A reincidência, especialmente no caso do perfil de Lula que não aparece nas buscas, mostrou que uma correção aparentemente implementada pode não ter eliminado definitivamente a falha.
Segundo uma pessoa familiarizada com os procedimentos internos, a Meta costuma realizar análises posteriores aos incidentes, conhecidas como post-mortem, uma ou duas semanas depois de resolvidos os problemas. Essas investigações procuram identificar o que provocou cada falha e quais medidas podem impedir sua repetição. No caso das falhas relacionadas ao perfil de Lula, ainda não há análise para identificar quais foram as causas.
Os documentos mostram ainda que a Meta preparou declarações públicas aprovadas em 10, 16 e 18 de outubro, além de publicações em seus canais institucionais, sobre os incidentes ocorridos na nossa eleição. O vice-presidente da empresa no Brasil, Conrado Leister, que ainda não deu nenhuma declaração pública à sociedade sobre os fatos – apesar de ter recebido um pedido de explicações – elaborou uma carta, mas destinada a clientes.
Enviamos uma série de perguntas para a Meta sobre as falhas apontadas nos registros, mas a empresa não nos respondeu. O espaço segue aberto.



