O que o Google não te contou no estudo que financiou sobre IA e jornalismo
Enquanto a empresa se defende em uma investigação de abuso de poder econômico, um estudo apareceu com uma conclusão conveniente.
Enquanto o Google apresenta sua defesa em uma investigação por abuso de poder sobre o jornalismo brasileiro, um estudo financiado pela própria empresa apareceu com uma conclusão conveniente: a IA é um “movimento transformador” nas redações, e o setor já se regula sozinho. Não existem coincidências aqui.
Como em outros tipos de abuso, o que está em curso aqui é uma espécie de gaslighting corporativo. No gaslighting, o abusador distorce e omite informações para manipular a vítima psicologicamente, levando-a a acreditar que ela está enlouquecendo, exagerando ou é culpada pelos problemas. A vítima vê, vive e sente o que está acontecendo, mas passa a não acreditar mais na sua própria percepção. Parece que o Google está tentando fazer isso com o jornalismo neste momento no Brasil.
Em diferentes frentes, a big tech busca convencer o campo jornalístico – e reguladores – que não capturou e estrangulou a imprensa, não rouba conteúdo jornalístico para seu AI Overview, não derrubou a audiência dos veículos (pelo contrário, ajudou), e que as IAs são maravilhosas para o dia-a-dia dos jornalistas e para o público.
Basta que qualquer jornalista olhe ao redor para reconhecer uma realidade muito distinta. Mas quem lê os materiais produzidos pela empresa, e sua argumentação pública, vai achar que estamos loucos.
Vamos começar pelo estudo feito pelo think tank Reglab e financiado pelo Google que mostra o “movimento transformador” provocado pela IA no jornalismo brasileiro. O relatório ouviu 11 representantes de veículos brasileiros, selecionados por já usarem IA de forma observável, e conclui que o uso da tecnologia tem gerado “transformação e inovação concretas nas rotinas das redações”, está provocando uma “redefinição do trabalho jornalístico”, e que “viabiliza produtos e projetos antes inviáveis”.
Conclui também que as redações não esperaram, e definiram suas próprias regras – o que, de acordo com os autores, mostra que parte do caminho da regulação do setor já foi trilhada. Já deu para entender o movimento?
O estudo usa a experiência de poucas redações – 11 profissionais, escolhidos por “amostragem de casos extremos” – para sugerir que a autogovernança do setor pode ser razoável.
"O lançamento do AI Overview no Google foi um grande motivo da queda da audiência do nosso site.”
Detalhe: uma das organizações entrevistadas, o Núcleo Jornalismo, anunciou uma pausa em suas operações em junho de 2026, poucos meses depois de sua diretora executiva ser entrevistada para o estudo. No comunicado, o Núcleo atribuiu a decisão à “distribuição insuficiente, inteligência artificial e queda em financiamento”. Isso não deveria ser uma nota de rodapé na história recente do jornalismo brasileiro – mas foi no relatório do Reglab.
“O Núcleo sempre foi muito transparente sobre o nosso uso de inteligência artificial na redação”, me disse Jade Drummond, diretora executiva do Núcleo. “Mas esse estudo tem um recorte muito específico no uso interno das ferramentas e ignora os impactos da IA no ecossistema do jornalismo como um todo. O uso de IA no trabalho da nossa redação pode ajudar em muitas coisas internas, como em qualquer outra empresa adotando novas tecnologias, mas não anula os efeitos negativos da IA na distribuição do nosso conteúdo e na nossa capacidade de gerar receita. E, nessa balança, o jornalismo sai perdendo.” O veículo acabou de anunciar que voltou de sua pausa.
Lendo o estudo no detalhe, é possível observar que os jornalistas entrevistados manifestaram uma série de preocupações – tratadas como “percepções” dos entrevistados, e não problemas sistêmicos. Quatro veículos, por exemplo, apontaram queda de tráfego orgânico via AI Overview, Google Discover e LLMs; dois apontaram redução de cliques e monetização, e uso de conteúdo jornalístico para treinar IAs sem contrapartida.
Praticamente todos manifestaram preocupação com a integridade da informação – como informações inventadas por IAs, plágio, falta de fonte, desinformação sintética alimentando o sistema, e ampliação do descrédito no jornalismo.
Os entrevistados também manifestaram, sem destaque, preocupações com fim de empregos, fim da criatividade e senso crítico, e riscos de segurança. Mas o relatório preferiu olhar para o copo meio cheio – “como um registro de iniciativas que mostram como a IA pode renovar o jornalismo, com produtos mais criativos e propostas mais atrativas para o público”, como escreveram os pesquisadores.
Não são percepções: são problemas estruturais
Como é praxe nos discursos da indústria da tecnologia, no relatório a IA aparece não como um produto corporativo movido a interesses econômicos específicos, mas como uma entidade externa que, num passe de mágica, é adotada e resolve questões de agilidade, revisão e facilita a apuração.
Precisamos lembrar que o jornalismo adotou IA – e aqui estamos falando basicamente de IA generativa, concentrada em poucas empresas como Google, OpenAI e Anthropic – e criou as suas regras porque essas tecnologias são empurradas goela abaixo: em treinamentos, em falas e executivos de mídia, no discurso corrente de que IA é necessária, inevitável e quem não usa é obsoleto.
Enquanto o discurso da inevitabilidade nos pressiona, os problemas estruturais provocados pela plataformização não foram resolvidos por nenhuma IA. Os entrevistados sabem, seus colegas sabem, todos nós sabemos – e, ao contrário do que sugere o relatório, não se trata de “percepção”.
As ferramentas de IA generativa distorcem informações enquanto fingem ser confiáveis: o maior estudo do tipo, coordenado pela União Europeia de Radiodifusão e pela BBC com 22 emissoras públicas em 18 países, encontrou problemas significativos em 45% das respostas sobre notícias — sendo o Gemini, do Google, o pior, com falhas em 72%.
O AI Overview está fazendo os usuários pararem de clicar: o Pew Research mostrou que a taxa de clique cai de 15% para 8% quando o resumo de IA aparece, e apenas 1% clica nas fontes citadas dentro dele.
O resultado? Veículos processam empresas de IA por uso não autorizado de conteúdo. Enquanto isso, postos de trabalho, especialmente para iniciantes, já começam a sumir, com queda de 16% no emprego de início de carreira nas ocupações mais expostas à IA desde 2022. E a desinformação sintética avança com fazendas de conteúdo movidas a publicidade programática, e falsos personagens de IA dominando as redes e enganando o público vulnerável.
(Se você pensa que os “médicos fictícios” de IA entrevistados por um artigo no portal Terra é um erro humano pontual, te convido a ler esse texto sobre como somos todos reféns da publicidade programática, que premia conteúdo de baixa qualidade.)
Enquanto somos cercados por tudo isso, o Google tenta nos fazer acreditar que não há nada de errado. E, apesar de eu ter usado essa metáfora nesse texto, não é manipulação psicológica aqui; é a defesa feroz de seus negócios. Neste momento, a empresa enfrenta uma investigação histórica no Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, por uso de conteúdo jornalístico.
Em seu voto, o conselheiro Diogo Thomson de Andrade afirmou que as mudanças na ferramenta de busca, como a exibição parcial do conteúdo nos resultados e os resumos de IA, intensificaram a dependência estrutural dos veículos ao Google. Assim, a empresa – que faz dinheiro extraindo conteúdo de terceiros – poderia estar abusando de sua posição dominante no mercado.
Na sua resposta, enviada ao Cade no início de julho, o Google argumenta que a queda de audiência no jornalismo é decorrente de sucessivas mudanças, que não têm a ver necessariamente com a empresa, e que os publishers, na verdade, se beneficiaram de seus produtos para alcançarem o público.
O Google ainda diz que se “inovações” como o AI Overview afetam o “volume de tráfego direcionado aos sites dos publishers, tais efeitos são o resultado da concorrência pelo mérito e de esforços para satisfazer melhor os usuários”. E tenta desqualificar as evidências apresentadas sobre a queda de audiência, sustentando a tese que que os veículos não são dependentes de suas plataformas.
“O lançamento do AI Overview no Google foi um grande motivo da queda da audiência do nosso site pela metade nos últimos 18 meses”, diz Jade Drummond, do Núcleo. “Isso dificulta o nosso crescimento, atrapalha na conversão de assinaturas pagas, na negociação de publicidade direta e na amplificação do nosso conteúdo”.
Não é coincidência que o relatório do Reglab – que conclui que as redações se beneficiam da IA e que o setor já se regula sozinho – seja apresentado nesse contexto. Mas não estamos exagerando, nem enlouquecendo. Estamos lendo os dados – e vendo, todos os dias, as sucessivas crises engolindo o jornalismo à medida em que aprofunda a dependência das big techs.
Por isso a pergunta que orienta um relatório sobre o tema importa tanto. “Como a IA pode transformar e inovar a execução das atividades diárias?” não é a pergunta certa. As questões deveriam ser outras. Como gigantes de tecnologia que acumulam dinheiro e poder sem precedentes estão capturando e monetizando o trabalho jornalístico para transformá-lo em lucro? E quem vai pagar essa conta?
Procuramos o Reglab, que não respondeu nossos questionamentos sobre o relatório.
Por Tatiana Dias
VÁ MAIS FUNDO:
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Muito bom