Rede de falsos médicos de IA no YouTube coloca idosos em risco
Impulsionada por recomendação e monetização no YouTube, rede soma 70 milhões de visualizações em poucos meses.
O erro fatal de 30 segundos que milhões acima dos 60 cometem todo dia de manhã. Nunca ignore a coceira em cinco áreas do corpo – pode ser câncer. Seu rosto fica inchado de manhã? Pode ser grave. Pare de comer abacate assim ou morrerá cedo. Esses são títulos reais de vídeos com médicos falsos, feitos com IA, postados em uma rede de canais monetizados no YouTube.
A rede de falsos médicos de IA, monitorada pela CTRL+Z, já soma mais de 70 milhões de visualizações – 10 milhões só no último mês. A maioria tem exibições de anúncios no YouTube, o que significa que a plataforma lucra com eles, e pelo menos um vende infoprodutos.
O caso é de extrema gravidade, pois o público alvo é a população idosa – que tem aumentado sua presença online, mas é mais vulnerável a golpes digitais. Uma rede semelhante já foi detectada no TikTok em 2025.
Se apresentando como “Dr. Roberto Fontes”, “Dra. Alina Vitta”, “Dra Sofia Ferreira”, entre outros, os médicos usam jaleco, olham para a câmera, e se dizem especialistas em urologia, nefrologia, diabetes e outras especialidades. Contam histórias de pacientes. Os temas tratados são voltados à população idosa – e os comentários evidenciam que os canais atingem em cheio esse público, que não se dá conta de que são perfis falsos criados com IA.
Os vídeos utilizam ganchos de atenção e linguagem sensacionalista para atingir um público vulnerável. Os avisos de IA são pequenos, quase imperceptíveis.
Os padrões de datas e descrições sugerem que os canais são criados em rede. Dos 29 canais analisados, 18 foram criados em 2026. Alguns tiveram ascensão meteórica e tiveram crescimento de mais de 400% em junho.
A produção dos vídeos sintéticos também é feita em escala industrial. Somada, a rede publica, em média, 10,7 vídeos diariamente, gerando 266.800 visualizações por dia no ecossistema. É um vídeo a cada dois dias, em média, em cada canal.

Além de espalharem desinformação e alarmismo, alguns canais também vendem infoprodutos. É o caso da personagem Dra. Sofia Torres, que vende um guia online sobre glicose controlada por R$ 47. “A Dra. Sofia Torres compartilha atendimentos, situações reais e aprendizados do consultório, sempre com empatia, clareza e respeito por quem está do outro lado”, diz a descrição do canal, um dos mais populares da rede. Criado em janeiro, ele já acumula mais de 2 milhões de visualizações.
“Este vídeo me trouxe um alívio profundo e esperança. Saber que posso combater o diabetes com atitudes simples, como mudar a ordem de comer o frango ou mariná-lo no limão, é libertador. Finalmente sinto que tenho o controle real da minha saúde”, escreveu um comentarista em um dos vídeos da personagem de IA.
“Os vídeos utilizam ganchos de atenção e linguagem sensacionalista para atingir um público vulnerável. Os avisos de IA são pequenos, quase imperceptíveis. E a reação do público, nos comentários, mostra que as pessoas não conseguem discernir se o conteúdo é real ou não”, diz Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da CTRL+Z. “É um problema gravíssimo de integridade informacional relacionada à saúde”.
A responsabilidade do YouTube
Questionado, o YouTube disse que todo seu conteúdo “deve seguir nossas Diretrizes da Comunidade". A empresa mencionou suas políticas sobre desinformação médica, que proíbem informações incorretas a respeito de prevenção e tratamentos capazes de causar, comprovadamente, danos graves no mundo real, e afirmou que adicionou rótulos a conteúdos gerados por IA “para garantir que os espectadores estejam informados sobre o que estão assistindo".
A CTRL+Z mandou um exemplo de vídeo e afirmou que os canais foram denunciados pela própria plataforma. Após o nosso contato e da reportagem da BBC Brasil, o YouTube removeu alguns dos conteúdos, mas a maioria permanece no ar.
Na avaliação da CTRL+Z, apenas remover os canais informados não resolve o problema – os incentivos econômicos para que esse tipo de conteúdo siga sendo produzido persistem. Também avaliamos que o YouTube tem – ou deveria ter – recursos para identificar os conteúdos nocivos que circulam em sua rede. “Se não houver mudança sistêmica na lógica que premia esse tipo de conteúdo com engajamento e monetização, outros criadores seguirão aproveitando o barateamento das tecnologias e a facilidade de produção para ganhar dinheiro sobre um público vulnerável”, diz Dias.
A política de desinformação médica do YouTube proíbe “conteúdo que constitua um risco sério de danos graves através da disseminação de desinformação médica que contradiga as orientações das autoridades de saúde locais (ASLs) sobre substâncias ou condições de saúde específicas”. Mas abre exceções para conteúdo com contexto educativo, documental, científico ou artístico, incluindo conteúdo de interesse, se isso estiver especificado na descrição do vídeo. É exatamente esse o caso. Dos 29 canais, 25 usam esses termos nas descrições.
Na avaliação da CTRL+Z, o YouTube e a rede de falsos médicos violam uma série de regulações. Para começar, as próprias regras do Código Penal e do Conselho Federal de Medicina, que penalizam a prática de estelionato e proíbem o exercício de ilegal da medicina – ou seja, quem usa título ou identidade médica sem registro no CRM. Práticas como promessas terapêuticas sem evidência científica e linguagem sensacionalista para captar pacientes – ou seja, charlatanismo – também são vedadas pela lei e pelo órgão.
Também violam o Código de Defesa do Consumidor, pois “se a empresa está dizendo que vai fazer esse controle, então ela tem que fazer, porque essa promessa, de acordo com a lei, é uma cláusula contratual estabelecida entre as plataformas e os consumidores”, avalia Luã Cruz, diretor de litigância da CTRL+Z. O entendimento considera não apenas o CDC, mas também o artigo 3 do Marco Civil da Internet, que prevê a “responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades”.
Vale também ressaltar que esse é o típico caso de uma rede de distribuição de conteúdo ilícito, prática que poderá ser alvo de responsabilização legal devido ao recente julgamento do STF e do novo decreto do Marco Civil da Internet. Assim, as big techs não poderão mais utilizar o argumento da “liberdade de expressão”, que era mobilizado para se esquivarem de responderem tanto por conteúdos criminosos quanto por anúncios fraudulentos ou enganosos que eram veiculados e monetizados por essas empresas de tecnologia.
VÁ MAIS FUNDO:
Reportagem da BBC Brasil com os dados da CTRL+Z: A indústria global de falsos médicos feitos por IA que usa o medo para viralizar entre idosos no Brasil: ‘Achei que fosse real’


