Sensores, IA e trabalho de dados: o novo espetáculo do futebol
Quem realmente está ganhando com o show tecnosolucionista da Copa do Mundo?
Contra sensores e dados não há argumentos. Pelo menos é assim que a Fifa vem tratando as tecnologias de câmeras, sensores e IA que têm transformado essa Copa em um espetáculo tecnosolucionista. Toda essa inovação festejada está mesmo melhorando o futebol? Quem está ganhando com isso?
A bola da Copa, chamada Trionda, da Adidas, tem sensores de movimento que registram tudo e enviam em tempo real para o sistema do VAR. Os dados coletados pelo sensor são combinados às posições dos jogadores e a imagens para revisar os lances. Para máxima precisão – segundo a Fifa – cada jogador tem seu corpo digitalizado em 3D. E as seleções têm à sua disposição um assistente de IA para analisar os dados coletados e ajudar a montar estratégias em campo.
Todas essas tecnologias são vendidas como soluções que garantem precisão e agilidade para a arbitragem e decisões supostamente mais técnicas ancoradas em dados para as seleções. Com base em milhares de dados coletados durante a partida, a plataforma Football AI Pro, lançada pela Fifa com a Lenovo, por exemplo, faz relatórios táticos e recomendações estratégicas às equipes técnicas.
Não sabemos se o sistema foi usado na Seleção Brasileira, mas sabemos que a escolha de Bruno Guimarães para bater o pênalti perdido contra a Noruega no jogo que nos tirou da Copa do Mundo foi baseada em dados. “Estatística”, resumiu o técnico Carlo Ancelotti.
Essa Copa do Mundo foi festejada por ser a mais orientada por dados da história: milhões de informações coletadas e processadas a cada partida, com um laboratório de dados que promete “revolucionar” o futebol com IA. É o mesmo discurso de sempre: aquele que vende a “inovação” tecnológica como solução para resolver problemas, dar agilidade, precisão e por aí vai.
No futebol não é diferente. E para os barões do esporte, a vantagem é dupla: ao terceirizar decisões para as máquinas, os humanos por trás delas se esquivam de responsabilização; ao mesmo tempo, cria-se uma nova e lucrativa camada de negócios sobre o esporte, que fica confortavelmente escondida por trás do hype tecnológico.
E por que transformar futebol em dados? “É um grande exemplo de como financeirização e datificação andam juntas”, diz Rafael Grohmann, professor da Universidade de Toronto, que começou a mapear essa indústria em uma nova pesquisa sobre trabalhadores de tecnologia na nova era do big data no futebol.
Ele explica que, nos últimos dez anos, houve uma explosão nas cifras de transferências de jogadores, e a Premier League, do Reino Unido, se tornou a liga mais rica do mundo. Nesse mesmo período, a ascensão das bets – legalizadas lá há cerca de duas décadas – acompanhou a transformação no futebol. “Foi a partir das bets na Inglaterra que passaram a investir mais em ciência de dados no futebol”, explica o professor.
A pesquisa ainda é inicial e ainda não é possível saber o tamanho dessa relação, mas já dá para afirmar que ela existe. A economia dos dados do futebol envolve o dinheiro dos clubes, a infraestrutura de computação que armazena os dados – normalmente de alguma big tech como Google ou Amazon – e as empresas que coletam e processam esses dados. A monetização disso tudo, explica Grohmann, pode ir para a mídia, para o mercado de recrutamento de jogadores ou para as bets.
“É bem claro que os dados que eu anoto são para apostas”, disse um anotador de dados do Rio de Janeiro a uma reportagem do Rest of World. Ele, que pediu para não ser identificado, afirmou que recebe cerca de R$ 350 por partida de futebol para anotar os lances. “Eles precisam de dados em tempo real para ajustar as odds durante a partida”, disse o trabalhador. “Então eu não posso atrasar para enviar os dados, ou perco parte do pagamento”.
As pesquisas iniciais de Grohmann também mostram que o big data do futebol segue a mesma lógica de desigualdade da indústria global de IA: países ricos concentram o fluxo de dinheiro, enquanto África, Sudeste Asiático e Leste Europeu ficam com o trabalho mal pago de anotação de dados. São milhares de ações capturadas, classificadas e transformadas em dados por jogo, que precisam ser analisadas por seres humanos. Por trás do espetáculo, há muito trabalho invisível.
Assim, com dados devidamente anotados e classificados, algoritmos podem ser treinados para turbinar os mercados de apostas e predições como Kalshi – patrocinadora da Copa – e Polymarket. A reportagem também mostrou que esse processo de datificação e IA no futebol é proporcional à entrada de dinheiro dos EUA, que vem crescendo em times na Premier League e na espanhola La Liga.
O gosto amargo da eliminação nos lembra que o que acontece no futebol é um reflexo da indústria de tecnologia. Enquanto vendem o discurso da inovação – de que seus sistemas são precisos, objetivos e existem para resolver problemas –, os senhores de negócios seguem encontrando formas eficientes de sugar um volume crescente de dados e para transformá-los em lucro (para poucos). E o futebol, enquanto isso, vira um jogo de precisão pretensamente científico, com espaço cada vez menor para a criação, o improviso e a humanidade.
Por Tatiana Dias e Luã Cruz


