A Copa das Apostas: cinco fatos sobre bets e big techs
Com parceria bilionária, não dá mais para fingir que essa conversa não inclui o YouTube.
As expectativas para a seleção do Haiti eram baixas nessa Copa (já foi eliminada, inclusive). Ainda assim, quem assistia à CazéTV no YouTube no dia da partida contra a Escócia recebeu uma dica dos apresentadores: quem apostasse na vitória dos haitianos receberia seis vezes o valor apostado.
Em outra dica na mesma partida, os apresentadores foram ainda mais específicos. Quem apostasse na vitória da Escócia, com dois escanteios e um chute a gol de McTominay durante o primeiro tempo teria sua “odd” – índice que, nas apostas, determina a probabilidade de um evento acontecer – aumentada de 5 para 6.
O jogo terminou com derrota para os haitianos – e, apesar da vitória da Escócia, não teve escanteio nem chute a gol. Ou seja: quem seguiu as dicas ao vivo do único canal que, em parceria com o YouTube, transmite todas as partidas desta Copa, perdeu dinheiro.
O influenciador Hugo de Freitas divulgou outro caso no jogo Uruguai e Cabo Verde. Em cena registrada por ele, a aposta recomendada era que o jogo teria, no mínimo, 5 gols. Era intervalo; já havia três gols no placar. Narrador e comentarista concordaram: “eu acredito nisso”. O jogo terminou em 2 a 2. “Sabe quem perdeu dinheiro? O trabalhador que seguiu a dica”, criticou Freitas.
Um levantamento da CTRL+Z mostrou que até agora, nesta Copa, foram transmitidas 98 propagandas que ajudam a inflacionar as “odds” durante as partidas. Destas, 35 acertaram. O resto deu prejuízo para quem apostou.
As recomendações de apostas já despertaram a preocupação de autoridades como a deputada Érika Hilton, do Psol, que acionou o Ministério Público Federal nesta terça-feira para suspender esse tipo de publicidade de odds e bets durante as transmissões.
Mas, além da CazéTV e das próprias bets, há outro elemento que está ganhando muito dinheiro com essa indústria: o YouTube. Essa Copa foi marcada pelo acordo histórico entre a empresa e a CazéTV, que possibilitou a transmissão de todos os jogos. E essa parceria foi selada com muito dinheiro para ambas: as empresas fecharam, juntas, R$ 2 bilhões em cotas de patrocínio, segundo uma reportagem da revista Exame. Cada cota foi vendida por R$ 185 milhões.
Entre as cotas estavam iFood, Itaú, Vivo, Mercado Livre e, surpresa, Bet365, KTO e Betnacional – as empresas de bets que agora têm odds recomendadas ao vivo.
“Agora, o torcedor já criou o hábito. Os bares e as famílias vão ligar a tevê e deixar no YouTube e na CazéTV”, disse Victor Machado, head de esporte, TV e filmes do YouTube, à revista Exame. Segundo ele, o esporte “é uma alavanca de receita global” e o “Brasil é o país mais avançado em desenvolvimento do ecossistema”. A mesma reportagem diz que a ideia era não apenas oferecer a visibilidade aos patrocinadores, mas “uma variedade de recursos e ferramentas” para “dominar a conversa”, segundo o head do YouTube.
Estudos mostram que a publicidade de bets está diretamente ligada aos danos que elas provocam na economia e na saúde dos brasileiros. E boa parte da publicidade bilionária das bets passa pelas big techs.
Enquanto o YouTube comemora que famílias ligam a tevê e assistem a CazéTV (e, por tabela, suas recomendações de apostas), as regras para publicidade de bets determinam, em tese, que crianças e adolescentes deveriam ser poupados desse tipo de propaganda. O problema é que as regras são frouxas e baseadas na autorregulamentação.
Na portaria do governo que regula bets, de 2024, não há restrição para isso. Em tons gerais, as regras definem apenas adotar linguagem “socialmente responsável” e preservar menores de 18 anos e “grupos vulneráveis”. Regras da Secretaria Nacional do Consumidor de 2024 também suspendem publicidades que oferecem recompensas e vantagens prévias e voltadas à crianças e adolescentes.
O Conar, Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, defende em seu guia para publicidade de apostas que as bets devem se abster de divulgar resultados ou ganhos certos, fáceis ou elevados, e apresentar informações enganosas ou irrealistas sobre a possibilidade de ganhos ou sugerir a ilusão de controle. Mas, pelo jeito, deixar para o próprio setor definir suas regras não está funcionando.
Perguntamos ao Google qual é a participação da empresa na negociação e nos lucros, se há controle do YouTube sobre o conteúdo dos anúncios e qual a visão da empresa sobre a recomendação de apostas ao vivo. O Google disse apenas, por meio de sua assessoria, que a publicidade de apostas esportivas no Brasil “é regulamentada e deve acontecer estritamente dentro dessa perspectiva legal”, e que publicidade via Google Ads e conteúdo patrocinado com criadores “devem obedecer nossas políticas”.
O Google disse, ainda, que “qualquer conteúdo ou anúncio em desacordo com essas regras será prontamente removido quando identificado”e que a empresa trabalha para “garantir um ambiente seguro e em conformidade com a legislação vigente.”
Estudos mostram que a publicidade de bets está diretamente ligada aos danos que elas provocam na economia e na saúde dos brasileiros. O relatório A Saúde dos brasileiros em jogo, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, mostra como a exposição constante a propagandas é um dos principais estímulos para o comportamento de risco, especialmente entre jovens.
As bets estão endividando e adoecendo brasileiros todos os dias, e essa epidemia passa pelas plataformas e redes sociais que também lucram com elas. Com a parceria selada e frutífera, não dá mais para fingir que essa conversa não inclui o YouTube.
Vamos a cinco fatos sobre a relação bets e big techs:
1. Bets gastam muito com marketing. E a publicidade em canais digitais explodiu.
As receitas das bets foram estimadas em R$ 37 bilhões em 2025. Quanto é gasto com publicidade? Esse dado não é público. Mas um relatório do Itaú de 2024 dá uma pista para uma estimativa. Em 2024, o banco calculou que bets gastariam entre 45% e 75% do orçamento com marketing – um valor altíssimo comparado a outros setores. Ainda que a conta esteja superestimada, levando em conta um orçamento conservador – 10% – é razoável supor que o mercado de publicidade de é bem frutífero.
Ok, e para onde vai esse dinheiro? Segundo um relatório de 2025 do IAB, entidade que representa empresas de publicidade digital, o setor de apostas estava entre os sete que mais investem na área – cerca de 35% do total de compra de mídia. Além disso, em 2024, as apostas foram o setor que registrou o maior crescimento do mercado de publicidade digital no Brasil.
2. Big techs fazem parte da infraestrutura e lucram com o ecossistema de apostas.
O relatório da CPI das Bets, que terminou ano passado, já havia apontado que redes sociais, plataformas de buscas e lojas de aplicativos lucraram com o ecossistema de bets – legais e ilegais. Os valores não são públicos, mas sabe-se que big techs abocanham parte considerável da verba de publicidade digital. Ainda segundo o IAB, 55% dos investimentos em publicidade digital vão para redes sociais, seguidos por anúncios no Google, com 26%, e portais de conteúdo, com 19%.
A relação entre bets e big techs também passa pela infraestrutura. Segundo o relatório da CPI das Bets, bets ilegais dependem da criação de domínios, indexação em buscas e lojas de aplicativos para funcionar. Tudo isso passa por big techs. Em abril deste ano, o Ministério da Justiça detectou mais de 120 apps de apostas ilegais nas lojas de aplicativos do Google e Apple.
E não estamos contando, aqui, o mercado de influenciadores, que também retroalimentam as redes sociais. A influenciadora Virgínia Fonseca, que tem mais de 50 milhões de seguidores no Instagram, recebeu R$ 40 milhões em cachê fixo da Esports da Sorte. Seu contrato ainda previa um bônus de R$ 80 milhões em caso de lucro para a bet. Ou seja: mais audiência no Instagram, mais engajamento, mais lucro. Para eles.
3. A Copa do Mundo fez esse número aumentar ainda mais.
Neste ano, as bets dobraram sua arrecadação no Brasil em relação a 2025. O total arrecadado em impostos, R$ 4,5 bilhões, já é semelhante a outros setores como tabaco e agricultura. Durante o ano passado, o número de apostadores brasileiros saltou de 17 milhões no primeiro semestre para 25 milhões no fim do ano. E a projeção é que, com a Copa do Mundo, os números vão subir ainda mais: um aumento de até R$ 25 bilhões em apostas durante o evento.
4. Big techs e bets querem te convencer que o problema são jogadores ‘irresponsáveis’ e as bets ilegais.
Há alguns dias, mostramos que um evento que se apresentou como um grande encontro para discutir regulação na internet e reuniu políticos e lobistas contou com o patrocínio do IBJR, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, uma entidade que representa bets. Por que esse setor patrocinaria um evento de big techs? Porque os dois têm interesses comerciais e estratégias em comum.
O primeiro deles é, por meio de campanhas de ‘jogo responsável’, jogar a culpa dos problemas de endividamento e saúde mental nos jogadores. Em parceria com a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o Conselho Digital, entidade de lobby de big techs, lançou uma campanha chamada “Controle Seu Jogo” – a ideia é ‘conscientizar’, “ajudar o jogador em caso de perdas e dependências” e criar uma “rede de apoio”. Enquanto isso, o Conselho Digital atua contra restrições na publicidade das bets.
A segunda estratégia é jogar a culpa dos males nas bets ilegais. O setor argumenta que restrições na publicidade das bets legais fortaleceriam o mercado ilegal. O Conselho Digital, além da campanha por “jogo responsável”, também tem um acordo com o governo federal para combater bets ilegais.
Apesar da estratégia de tentar separar os dois mercados, os dados mostram que as bets legalizadas também são responsáveis por danos financeiros e emocionais aos apostadores. Foi justamente após a legalização de apostas, em 2018, que começou a crescer o número de pessoas diagnosticadas com diagnóstico de Transtorno do Jogo e Mania de Jogos de Aposta na Rede de Atenção Psicossocial, segundo dados do Ministério da Saúde.
5. Agora, uma campanha quer acabar com a publicidade de bets. E nós apoiamos.
Big techs fazem parte do ecossistema que está lucrando com o adoecimento e o endividamento de milhões de brasileiros. As grandes empresas de tecnologia estão juntas com as bets nas estratégias de negociação e campanhas públicas – e esse alinhamento é central para os negócios de ambas.
É por isso que a CTRL+Z apoia a campanha Brasil contra Bets, que está coletando assinaturas em apoio a um projeto de lei que visa proibir a publicidade de bets no Brasil. Não podemos jogar a responsabilidade nas costas das famílias – e essa Copa do Mundo está deixando claro que não dá para confiar na autorregulação e no bom senso de quem está ganhando dinheiro com essa indústria.
Se o objetivo é deixar famílias do Brasil inteiro assistindo à transmissão do YouTube, então a obrigação dessas empresas é proteger os espectadores de propaganda e expectativas de ganhos irreais – que é o que dizem as próprias regras que elas deveriam seguir. Se seguem priorizando os lucros, é hora de restringir.
Assine aqui e conheça a campanha.
Por Tatiana Dias, Luã Cruz e Luciana Elmais


