‘Temos que deixar de lado o fetiche de regulação’
O que vimos no encontrão de lobby de big techs, bets e políticos em Brasília.
Um grande encontro movimentou o mundo da internet no Brasil na semana passada. E não, não estamos falando do Fórum da Internet no Brasil. Na verdade, enquanto a sociedade civil estava em peso em Belém para o FIB2026, evento anual de governança na internet, em Brasília a movimentação era outra. CEOs, diretores de políticas públicas de big techs e bets, lobistas e políticos se reuniram para o Brasília Tech Summit, autointitulado “maior encontro sobre regulação digital do Brasil”.
A gente estava lá também. Não nas mesas – que pouco contemplaram a sociedade civil –, mas na plateia, com um repórter contratado para a cobertura (Guilherme Amado, criador do canal AmadoMundo, organizador do evento, nos convidou dois dias antes, quando já tínhamos fechado com o repórter).
Uma propaganda de cinco minutos do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável – entidade de lobby de bets no Brasil, uma das patrocinadoras do evento – começou os trabalhos. Perguntamos se Amado não vê conflito de interesses no patrocínio. “São empresas que têm questões regulatórias em debate como todas as outras”, ele nos disse. “A pessoa pode gostar ou não de bets, mas elas são parte da economia digital”.
Amado lembrou que várias outras marcas também patrocinaram o evento (Amazon, QuintoAndar e Caixa, entre outras), e que é “miopia” ver conflito de interesse em patrocínio de eventos privados e não ver em fundações patrocinando eventos do terceiro setor. “Toda fundação tem seu dinheiro originário em algum setor da economia”.
Depois da abertura, em que a mestre de cerimônias falou em “marcos regulatórios atropelados e legislação atual ineficiente” e chamou IA de “revolução”, começou a primeira mesa. Hugo Motta, presidente da Câmara, agradeceu pelo evento que juntou “grandes nomes” das big techs. O parlamentar do Republicanos repetiu várias vezes que o Congresso atua em uma “linha muito tênue” entre ausência de regras e excesso de regulação.
Motta prometeu apresentar até 9 de junho o relatório da comissão especial que discute a regulação da inteligência artificial na Câmara. E sinalizou a possibilidade do Redata, projeto que oferece incentivos fiscais para data centers no Brasil, caminhar junto da regulamentação da IA. Nesse momento, o presidente do Google no Brasil, Fábio Coelho, fez um sinal de “por favor” com as mãos.
Na mesma mesa, o presidente do Google se mostrou alinhado com Motta, a quem parabenizou pela gestão “moderna”. Ecoando a Cartilha de Lobby das Big Techs, também disse ser a favor de um processo de regulação “saudável, que permita a inovação e que também consiga proteger as grandes empresas”.
“Temos muitas pessoas trabalhando com os deputados e as comissões e estamos todos na mesma página e num processo de coesão”, garantiu o presidente do Google. A gente não duvida.
“Isso pode não ser uma coisa muito simpática, mas nem todo país vai desenvolver um modelo de fronteira de IA”, diz OpenAI.
Fábio Coelho também deu a cartada do Paraguai – uma jogada que deve ficar comum em debates sobre regulação de tecnologia no país. A gente explica: por suas políticas de incentivo fiscal e juros baixos, o Paraguai tem sido festejado por supostamente estar se tornando um polo tecnológico na América do Sul.
Na verdade, o plano é basicamente oferecer energia barata às big techs para atrair data centers e mineração de cripto, sem benefícios claros à população (sobre esse assunto, recomendamos a cobertura do veículo paraguaio El Surtidor).
Mas o fantasma de ‘fugir para o Paraguai’ pegou. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, chegou a suplicar que o Google não vá para o país vizinho. No evento, Fábio Coelho fez questão de evocar a possibilidade – e a frase pairou no auditório como uma lembrança educada de que, no debate sobre tecnologia em Brasília, lobby raramente vem em forma de ameaça. Normalmente aparece como piada.
Mas foi de Bruno Lewicki, head de Políticas Públicas para América Latina na OpenAI, a fala de destaque no dia. “A gente tem que deixar de lado o fetiche da regulação”, ele disse.
Lewicki defendeu que o Brasil pare de iniciar o debate sobre inteligência artificial pela regulação e, com as hipérboles características de sua indústria, argumentou que a tecnologia está em estágio comparável “à invenção da roda, da prensa, do motor a combustão e da internet”.
Em seu painel, o lobista disse que o Brasil precisa ter um projeto de IA – mas também fez questão de minimizar qualquer pretensão mais ambiciosa do nosso país.
“Isso pode não ser uma coisa muito simpática, mas nem todo país vai desenvolver um modelo de fronteira de IA, você não necessariamente vai ter ChatGPT ou concorrentes sendo criados”. Lewicki citou o Japão como exemplo, cuja abordagem, segundo ele, não tenta desenvolver modelos de fronteira, mas “cria espaço para a economia local se adaptar à IA”, e regula “onde o mercado não conseguiu se resolver”.
Defendendo uma regulação setorial, ele questionou: “Me julguem, mas será que precisa desse grande fetiche da grande codificação? Um Código de Napoleão da IA brasileira?”, referindo-se ao Código Civil Francês de Napoleão Bonaparte. E repetiu a palavra fetiche mais uma vez (nós julgamos).
A tensão dos corredores do Congresso não se refletiu naquele encontro – o clima estava mais propício para tapinhas nas costas.
A defesa de uma “regulação inteligente” reapareceu em praticamente todos os painéis que assistimos, normalmente acompanhada por expressões como “não atrapalhar”, “não perder o bonde” ou “não impedir a inovação”. Tatiana Matos, presidente da empresa de caronas Blablacar, resumiu a lógica com aquele discurso de inevitabilidade tecnológica que conhecemos: “IA não é uma tecnologia opcional. Querendo ou não, você vai ter que se adaptar”, afirmou.
Nos corredores, lobistas falavam baixo perto de jornalistas e câmeras de celular. Diretores de empresas circulavam em clima de confraternização. Se naquela semana as big techs estavam em plena ofensiva contra os decretos do governo que endureceram regras para redes sociais, a tensão dos corredores do Congresso não se refletiu naquele encontro – o clima estava mais propício para tapinhas nas costas.
Na programação, havia apenas organizações e associações ligadas ao mercado. Questionado sobre a pouca participação da sociedade civil, Guilherme Amado lembrou que o curador do evento é Fabro Steibel, diretor-executivo do ITS-Rio, e que “o evento nasce desse olhar". E afirmou que também se “considera sociedade civil" (Amado é fundador e hoje conselheiro da Redes Cordiais). “Temos no DNA do evento organizações do terceiro setor", afirmou.
Naquele mesmo dia, em Belém, o Fórum da Internet no Brasil chegava ao fim com centenas de representantes da sociedade civil debatendo proteção de crianças e adolescentes, soberania nacional, direitos digitais e regulação – sem CEOs e presidente da Câmara. Os dois eventos aconteceram na mesma semana, no mesmo país, sobre o mesmo assunto. Mas claramente não estavam falando para a mesma plateia.


