Depois de semanas de tensão, o segundo encontro do Clube do Livro da CTRL+Z aconteceu em clima de alívio sobre o resultado do que aconteceu nas redes e nas urnas. Recebemos Letícia Cesarino, antropóloga e professora da UFSC, autora de Ecologias da crise: uma teoria cibernética da radicalização.
No seu novo livro, a autora trata da radicalização de adolescentes em ambientes como o Discord, mas a conversa foi além dele. Usamos a teoria de Letícia para entender o papel da Meta nas eleições, a polarização e a virada digital do campo progressista em outubro. E foi daí que saiu o ponto mais provocador da noite: para ela, a luta por regulação das plataformas já não resolve mais o nosso real problema, e a prioridade agora precisa ser construir a nossa soberania digital.
Ainda no período eleitoral, nós da CTRL+Z, reunimos dados que mostram a interferência da Meta nas eleições de 2026. Demos início ao encontro buscando entender onde esse processo de intervenção começa. Para ela, a radicalização que o livro descreve também acontece dentro da própria indústria de tecnologia, e aparece até no comportamento de fundadores como Zuckerberg e Musk. “A gente vê até a mudança física deles. Mais malhados, mais masculinos.”
O pano de fundo é a disputa com a China e a corrida pela inteligência artificial, que coincidem com o segundo mandato de Trump. Nesse cenário, os Estados Unidos voltam os olhos para a América Latina, e o Brasil, com as terras raras, vira peça importante. Letícia aponta como um exemplo o vídeo de Zuckerberg de janeiro de 2025 anunciando mudanças na moderação. Uma semana depois, o vídeo do Pix de Nikolas Ferreira explodiu no Instagram, no que ela lê como um possível ensaio do que viria acontecer. As eleições brasileiras entram nesse mesmo fluxo um ano e meio depois.
“O barco da regulação já passou”
Letícia trabalhou no governo federal em 2023 e 2024 com direitos humanos e pautas digitais, incluindo os ataques a escolas e o ECA Digital. Nesse período, já sentou com TikTok, Meta, Roblox e Microsoft dezenas de vezes. Por conhecê-los de perto, ela assume uma opinião que chamou de impopular: “A pauta da regulamentação já passou. Esse barco aí já passou.”
Não se trata de abandonar a regulação, que segue importante – mas ainda insuficiente. . “Isso é contenção de danos, salvar vidas.” Cesarino aponta que mesmo leis aprovadas, como o ECA Digital, correm o risco de não vingarem porque as empresas fazem ‘corpo mole’ para implementar. Na regulação eleitoral, a perspectiva é ainda pior: “O Congresso não vai legislar para regular algo que não beneficia eles.”
A saída estrutural, para Letícia, é trocar a infraestrutura. “A urgência da pauta de hoje não é regulamentação, é soberania digital.” Ela destaca que a chave virou para o Presidente Lula quando ele teve noção da quantidade de dinheiro público que vai para as big techs em aluguel de nuvem. E reforça que a mudança não pode esperar o governo. Precisa vir de baixo, das universidades, dos coletivos e dos movimentos sociais.
Por trás dessa defesa está uma ideia central da obra de Letícia: “Essas tecnologias não são mídias, não são ferramentas, elas são ambientes.” É onde vivemos e absorvemos a realidade. Ela compara as plataformas a um rio em que os algoritmos são a correnteza, e “os agentes da extrema direita nadam a favor dessa correnteza”. A esquerda trabalha com debate e educação, enquanto as plataformas segmentam, aceleram e mantêm as pessoas num estado de crise permanente.
O livro acompanha como alguém é puxado para a toca do coelho até a violência extrema, e Letícia acredita que a mesma lente serve para a parcela radicalizada do bolsonarismo. O 8 de janeiro foi o exemplo mais visível. E se a extrema direita cresceu no Congresso, é provável que essa parcela também tenha crescido: “Se tá aparecendo mais canários, a mina de carvão tá mais tóxica.”
Segundo turno: um estado de exceção
No segundo turno, a esquerda de forma inédita dominou as redes, e o exército digital de André Janones virou símbolo disso. Passei essas semanas dentro dele, me perguntando se aquilo realmente viraria voto e, ao mesmo tempo, entendendo que quem, independente do resultado da eleição, estava lucrando com cada milhão de novos soldados era a Meta. Letícia teve a mesma sensação, afinal, como ela definiu: “Eles nunca perdem.”
Para ela, o que vimos foi um estado de exceção, um momento em que as regras ficam suspensas e as pessoas agem por intuição e afeto. Janones canalizou um movimento espontâneo e ensinou fazendo, abrindo a caixa-preta dos botões do Instagram para milhares de pessoas. A diferença decisiva em relação ao bolsonarismo é que a exceção tinha prazo. Na extrema direita, explica Letícia, “a radicalização é sempre aquele modo tenso que nunca passa”.
Ela destacou ainda duas táticas que ajudaram a furar bolhas: o meme de massa, que tira a pessoa do fluxo por um instante, e o incentivo à pesquisa no Google, que a obriga a buscar a informação em vez de só recebê-la.
Imaginar fora das máquinas
O livro termina com uma frase que levamos para o debate: “Não precisamos de mais realismo, mas de tocas de coelho que levem a espaços de fantasia arejados, flexíveis e reversíveis”. Sistemas saudáveis oscilam entre sono e vigília, realidade e imaginação. As plataformas bloqueiam esse movimento e fazem as pessoas girarem em espiral.
É aí que soberania digital e imaginação política se encontram. “O bloqueio é da imaginação tecno política, porque hoje nós imaginamos com e dentro de máquinas cibernéticas coletivamente. Então se a gente tá imaginando dentro das plataformas das big techs, não estamos imaginando mas sim entrando em fantasias que pode levar a espiral de de radicalização”.
Ainda assim, Letícia saiu otimista de outubro. A esquerda ocupou o terreno do adversário com criatividade e sem adotar o ponto de vista dele. Isso importa porque, nas palavras dela, extrema direita e plataformas “hoje são o mesmo inimigo”.
A proposta dela para o dia a dia é inverter o doubling da radicalização. “Você não precisa migrar totalmente agora, mas que tal dividir sua vida, levar essa vida dupla?” Manter o Instagram enquanto se familiariza com as tecnologias livres, para estar pronto quando a migração for possível. Ela mesma conta que, ao conviver com o pessoal da rede, passou a ter vergonha de mandar e-mail do Gmail para os amigos hackers. Saímos do encontro com um slogan pronto para camiseta: “Make Gmail cringe”.
No dia 26 de novembro, vamos conversar sobre Informática do oprimido, de Rodrigo Ochigame. O autor mostra como códigos, algoritmos e interfaces são campos de disputa política que podem reproduzir desigualdades, e como as grandes plataformas, otimizadas para o lucro, acabam silenciando vozes marginalizadas.
Ochigame analisa como redes sociais controladas por grandes corporações são otimizados para o lucro e a publicidade direcionada, muitas vezes silenciando vozes marginalizadas e questiona ainda como seriam as plataformas digitai se fossem desenhadas para refletir valores éticos, comunitários e solidários. Para participar, é só entrar na Comunidade CTRL+Z em comunidade.ctrlz.org.br.



