Caros leitores,
Essa, mais uma vez, não é uma eleição qualquer. Não estamos diante de candidatos razoáveis que habitam lados opostos de um mesmo espectro democrático. Estamos diante de opções que podem destruir esse espectro.
A disputa, aqui, é se a gente vai continuar vivendo em um país funcional e soberano, ainda que com todas as suas contradições, ou se vamos sucumbir à dominação dos EUA, que ativamente usam seu aparato tecnológico – e as big techs – para isso.
Nós sabemos que as últimas semanas foram angustiantes. Também nos sentimos perdidos diante da avalanche de notícias e escândalos no Supremo Tribunal Federal, e das investigações sobre esquemas de corrupção de Daniel Vorcaro, do banco Master e do filme de Jair Bolsonaro.
Mas agora é a hora de colocar a bola no chão.
A CTRL+Z surgiu para enfrentar o poder desmedido das big techs, e nós entendemos que essas empresas não apenas têm interesses comerciais no Brasil, mas também são ativos geopolíticos de dominação de seu país de origem, os EUA, sobre outras nações.
E as eleições são um momento propício para esse tipo de intervenção (nossos vizinhos latino-americanos não nos deixam mentir).
O setor de tecnologia é uma das bases de apoio de Trump. As big techs, que antes se alinhavam com valores liberais, saíram do armário e abraçaram o extremismo trumpista sem muitos rodeios.
Seus CEOs não escondem que deixaram as pessoas em segundo plano em declarações públicas e no trato com os usuários e seus próprios funcionários, cortados em sucessivos layoffs e utilizados como matéria-prima para treinamento de IA (até serem substituídos por ela).
Enquanto tratam a IA como mais inteligente do que os seres humanos, tech bros vêm a público alertar o mundo sobre seus riscos – aumentando ainda mais seu capital político, como se fossem os únicos capazes de controlar os monstros que eles mesmos estão criando. E Trump, ainda assim, se recusa a colocar o pé no freio: para ele, o mais importante é vencer a corrida contra a China.
Estamos caminhando rápido rumo ao tecnofascismo, e essa eleição será determinante para demarcar a posição do Brasil nesse futuro. Porque, para que a marcha distópica das big techs se consolide, há um gargalo: elas precisam de recursos.
Recursos naturais, como água e energia, para turbinar seus data centers, e recursos minerais para produzir seus chips e baterias; recursos humanos para treinar e produzir dados (porque, por mais que a força de trabalho seja cada vez mais substituível, a necessidade de se produzir e tratar dados de forma humana ainda não é).
O Brasil tem tudo isso. Mas tem também um governo que tentou, abertamente, controlar o poder das big techs, e enfrentou as ameaças dos EUA por causa disso. Tem também uma sociedade civil madura e capaz de se articular e resistir.
E um histórico de lutas em prol de marcos regulatórios, como a aprovação do Marco Civil da Internet, com vários avanços recentes, como a mudança no regime de responsabilização de plataformas, o ECA Digital, e os decretos apresentados pelo governo neste ano sobre misoginia online e outros temas.
Nesse contexto, Trump – e as big techs – sabem que tem um candidato que vai dar mais dor de cabeça para seus planos do que os outros, e já elegeram seu favorito: Flávio Bolsonaro, do PL.
Para eles, é uma escolha muito fácil: Bolsonaro não perde a chance de demonstrar total vassalagem aos interesses dos EUA.
Sobre terras raras, disse que o Brasil é “a solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”.
Bolsonaro também quer transformar o Brasil em um “pólo de data centers” e fazer um “revogaço” regulatório, atingindo agências reguladoras, e um “tesouraço da censura”, ou seja, “acabar com qualquer estrutura estatal que funcione como um ‘Ministério da Verdade”, como diz seu plano de governo.
Flávio Bolsonaro chegou a oferecer a equipe de transição à disposição dos EUA, caso seja eleito. Bolsonaro foi aos EUA se reunir com Trump, e logo depois os EUA anunciaram o tarifaço contra produtos brasileiros – uma de suas intervenções que já está em curso.
No pedido de investigação, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, USTR, na sigla em inglês, deixou claros os interesses das big techs: eles citam nominalmente a decisão do STF de aumentar a responsabilidade das plataformas, alterando o Marco Civil da Internet, como um dos motivos para o tarifaço.
Lula, por sua vez, defende em seu plano que se expanda a regulação das redes que está em curso no seu governo, e tem se ancorado em um discurso de soberania digital.
Seu governo foi marcado por uma série de iniciativas regulatórias – dos decretos que aumentaram a responsabilização ao PL de Mercados Digitais, que pretende combater a concentração de mercado das gigantes de tecnologia. Embora também defenda, em seu plano, a expansão de data centers no Brasil – algo que criticamos –, a diferença é gritante.
“É parte da reafirmação da democracia avançar ainda mais na regulação democrática das redes sociais e das plataformas digitais, de modo a impedir que elas difundam desinformação, acolham campanhas de ódio e outras formas de comunicação nocivas para a democracia”, diz o programa de Lula, que faz a ressalva: “nenhuma democracia sobrevive sem uma opinião pública plural e sem a garantia plena da liberdade de expressão”.
Os outros três candidatos melhor ranqueados, Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), têm planos e propostas com diferentes níveis de detalhamento sobre questões chave envolvendo a tecnologia.
Os três também abordam a questão da soberania nacional – mas, de maneira geral, têm uma visão menos intervencionista do Estado em relação às big techs, e defendem que as empresas sejam livres para “inovar”. Nós já sabemos o que isso significa, especialmente em um país como o Brasil.
Essas diferenças não são apenas retórica de campanha. São a diferença entre um país que negocia com as big techs e um país que se ajoelha para elas.
Por isso, mapeamos abaixo, tema a tema, onde estão Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos em sete frentes que vão decidir o lugar do Brasil nessa disputa: regulação de plataformas e redes sociais, concentração de mercado, data centers, exploração de terras raras, soberania digital, inteligência artificial, e proteção de crianças e combate à misoginia online.
Leia o mapeamento. Compartilhe essas informações. Essa eleição vai decidir se a gente continua na luta ou entrega o jogo.
Essa não é uma escolha muito difícil.
Regulação de plataformas
Lula: Em maio de 2026, assinou decretos que endurecem regras para big techs, atualizando o Marco Civil da Internet e dando à ANPD competência para fiscalizar as plataformas. No plano de governo, promete avançar ainda mais na regulação das plataformas digitais para combater a desinformação, campanhas de ódio e crimes digitais.
Flávio Bolsonaro: chamou os decretos de Lula de “censura” e “ofensiva contra a liberdade de expressão”. No plano, defende legislação voltada à liberdade de criar e inovar, que não seja “sufocada por regras que afugentam o investimento”. Promete o “Tesouraço na Censura” para “acabar com qualquer estrutura estatal que funcione como um ‘Ministério da Verdade’, encarregada de vigiar, rotular ou punir o que as pessoas dizem”.
Augusto Cury: fala em estimular maior responsabilidade das plataformas digitais, mas sem se comprometer com um caminho específico de regulamentação. “As redes sociais têm de ser responsabilizadas, sim. Qualquer suicídio, qualquer automutilação ou qualquer dependência mais grave, se caracterizada, fará com que paguem multas severas”, declarou.
Ronaldo Caiado: quer consolidar em lei regras de responsabilidade, devido processo, transparência e recurso, preservando o Marco Civil da Internet. Também declarou que quer proibir a publicidade de bets.
Renan Santos: é o mais explícito contra qualquer regulação. Promete “oposição firme a quaisquer propostas de regulação da mídia e da internet que reduzam a margem de liberdade de expressão no Brasil”.
Data centers
Lula: promete assegurar a expansão de data centers desde que acompanhada de salvaguardas socioambientais. Seu governo apresentou a MP 1318/2025, que deu origem ao Redata, apresentado pelo Congresso em amplo debate com a sociedade.
Flávio Bolsonaro: quer transformar o país em polo global de data centers sustentáveis aproveitando a matriz elétrica renovável, com regulação de fontes de energia voltada ao menor preço ao consumidor.
Ronaldo Caiado: oferece “ambiente tributário competitivo e contrapartidas ambientais, tecnológicas e sociais”, buscando energia limpa e formação local.
Renan Santos: quer fazer do Brasil, e do Nordeste em particular, a Arábia Saudita do Brasil, o “maior exportador de inferência computacional do hemisfério ocidental”, com incentivos fiscais e arcabouço regulatório específico.
Augusto Cury: não tem uma proposta específica e detalhada sobre data centers.
Exploração de terras raras
Lula: aposta em “soberania tecnológica”, crédito do BNDES para conteúdo local e cadeias nacionalizadas, e no Nordeste como polo industrial atraído por energia renovável, sem detalhar ações específicas.
Flávio Bolsonaro: deixa a condução para a iniciativa privada – “o Estado atuará como regulador e coordenador, não como empresário” – e quer parcerias internacionais “sem preconceitos ou ranços ideológicos”, aceleração de licenciamento e crédito.
Augusto Cury: propõe uma expansão mineral que “acelera e simplifica” o licenciamento ambiental para transformar o país em produtor de bens de maior valor agregado.
Ronaldo Caiado: Tem 13 propostas que incluem criar uma Estratégia Nacional de Minerais Críticos, recompor a capacidade de fiscalização da ANM, integrar licenciamentos e exigir processamento local e transferência de tecnologia nas parcerias internacionais.
Renan Santos: trata o refino chinês de terras-raras como um “grave problema geopolítico” e propõe acordos bilaterais com EUA e UE, criação de zonas econômicas especiais e integração do Brasil às cadeias dos EUA e Europa.
Soberania digital
Lula: soberania é o eixo organizador de toda a agenda de ciência, tecnologia e inovação. Seu plano propõe uma infraestrutura computacional soberana, com supercomputadores desenvolvidos e operados por instituições nacionais, cadeia brasileira de data centers e nuvem, um Conselho Nacional pela Soberania Digital e modelos de linguagem em português.
Flávio Bolsonaro: defende que o Brasil deixe de ser consumidor para se tornar produtor e desenvolvedor de tecnologia, aproveitando matriz energética renovável e minerais críticos – mas isso associado a atrair capital e tecnologia estrangeiros “sem preconceitos ou ranços ideológicos”.
Augusto Cury: menciona o fortalecimento da soberania digital, com investimentos em segurança cibernética e proteção de dados estratégicos.
Ronaldo Caiado: enquadra toda a área de ciência e tecnologia como base para aumentar produtividade, soberania e capacidade de desenvolvimento do país, com infraestrutura pública digital e “diplomacia tecnológica” para atrair investimento, conhecimento e mercado.
Renan Santos: defende soberania em terras-raras (chamada de “questão fundamental de Estado”) e domínio do ciclo completo do combustível nuclear, incluindo conversão e reprocessamento. Essa soberania, no entanto, dependeria de captação predominantemente externa (acordos com EUA e UE, capital de risco).
Regulação de Inteligência Artificial
Lula: é alinhado ao PL 2338/2023 (Marco Legal da IA), em discussão no Congresso. O plano liga IA a “soberania tecnológica”: infraestrutura computacional soberana com supercomputadores nacionais, cadeia de data centers e nuvem, Conselho Nacional pela Soberania Digital, modelos de linguagem em português. Também promete um Centro Nacional de Transparência Algorítmica, para que decisões automatizadas possam ter escrutínio público.
Flávio Bolsonaro: contrário ao PL 2338. Defende uma legislação focada na liberdade de criar e inovar, sem regras que afugentem investimento. Propõe uma Estratégia Nacional de IA para disseminar a tecnologia entre micro, pequenas e médias empresas (indústria, agro, saúde, logística) e cria a ClarIA, assistente de IA para orientar cidadãos em saúde, emprego, crédito e segurança.
Augusto Cury: não tem posição explícita sobre o PL 2338 — propõe seu próprio “marco legal para IA” dentro de uma Estratégia Nacional de Inteligência Artificial. Usa IA de forma transversal na saúde, segurança, meio ambiente e energia — e é o único a relacionar uso excessivo de plataformas a uma “intoxicação digital” como problema de saúde mental.
Ronaldo Caiado: No plano, a IA aparece dentro de um capítulo de Ciência, Tecnologia e Inovação com metas para semicondutores, computação quântica, robótica e política de cibersegurança. Propõe um plano que proteja direitos sem “bloquear a inovação”.
Renan Santos: é dos mais avessos a regular — prefere reduzir impostos para empresas de tecnologia a criar regras. Apresenta o Marco Brasileiro de Inteligência Artificial (MBIA), com 14 medidas em 5 eixos (redução de impostos, facilidades para stock options, incentivo a venture capital).
Concentração de mercado
Lula: Seu governo defendeu regras de responsabilização das plataformas voltadas ao combate ao abuso de poder econômico e à concentração informacional, e apresentou um projeto de lei para regular isso – o PL dos Mercados Digitais.
Flávio Bolsonaro: vai na direção oposta. Sua proposta é uma “legislação pró-inovação”, com ambiente regulatório que evite regras consideradas excessivas para o setor, e estimule a entrada de capital e tecnologia.
Augusto Cury: não tem proposta específica sobre concorrência ou concentração de mercado digital; o eixo é o marco legal de IA voltado a “inovação, ética e segurança jurídica”, sem menção ao poder estrutural de mercado.
Ronaldo Caiado: propõe regras de responsabilidade, transparência, devido processo e direito de recurso para plataformas, defende interoperabilidade e portabilidade de dados, e amplia a capacidade do CADE para lidar com mercados digitais e empresas com poder estrutural.
Renan Santos: sem proposta voltada à concorrência ou concentração de mercado. A lógica do seu Marco Brasileiro de Inteligência Artificial é de redução de impostos, venture capital e Zonas Econômicas especiais para atrair investimento.
Proteção a crianças na internet
Lula: é o único dos cinco a citar o ECA de forma positiva e explícita, comprometendo-se a “não recuar um passo sequer na proteção digital de crianças e adolescentes”, com aprimoramento do ECA Digital, regulamentação do uso de telas por faixa etária e regulamentação das plataformas de jogos e ambientes digitais.
Flávio Bolsonaro: não cita o ECA no plano; a proposta de maior impacto na área é a castração química de condenados por abuso de crianças.
Augusto Cury: também não cita o ECA especificamente; fala em estimular transparência e responsabilidade das plataformas quanto a conteúdos nocivos a crianças.
Ronaldo Caiado: Fala em “implementação plena” da proteção de crianças no ambiente digital sem mencionar o ECA Digital.
Renan Santos: critica abertamente o ECA Digital, propondo uma “reavaliação do papel do Estatuto da Criança e do Adolescente” e uma “uniformização comportamental do estudante, com implicações punitivas” nas escolas.
Misoginia online
Lula: tem a medida mais concreta e diretamente ligada ao tema, via decreto (não pelo plano de governo em si): obrigar plataformas a agir proativamente para impedir crimes contra mulheres, exigir que serviços de IA impeçam a geração de nudes sintéticos de meninas e mulheres, e manter canal específico de denúncia para crimes que afetem mulheres nesses ambientes.
Flávio Bolsonaro: seu eixo “Brasil por Elas” foca em atendimento (Central da Mulher, assistente de IA “ClarIA”, tornozeleiras eletrônicas), mas não traz nenhuma medida específica sobre discurso de ódio ou conteúdo misógino nas redes.
Augusto Cury: aproxima redes sociais e violência simbólica contra mulheres, ao relacionar padrões de beleza disseminados nas redes à saúde emocional de meninas e adolescentes, propondo campanhas de conscientização e “regulação de conteúdos considerados nocivos”.
Ronaldo Caiado: prevê ações contra a violência política de gênero, com investigação de ataques a candidatas e fiscalização das regras de financiamento eleitoral, mas nada especificamente sobre plataformas ou ambiente digital.
Renan Santos: a palavra “mulher” aparece só três vezes no seu plano, duas delas em referências genéricas, e não há seção dedicada nem menção a feminicídio, violência doméstica ou qualquer proteção específica.





