Por dentro da CTRL+Z #2: Como fazer uma big tech voltar atrás
Vem com a gente conhecer as vitórias e os reveses nesse caminho árduo, mas divertido.
Querida comunidade ctrlzeira,
Esse mês termina com algumas vitórias, alguns reveses e a certeza de que o caminho é longo e árduo, mas também divertido – e estar em ótima companhia ajuda muito. A gente sabia que ter como alvo as empresas mais poderosas do mundo não seria fácil, então temos como lema aprender e fazer amigos nesse processo. E, nessa caminhada, temos uma comunidade poderosa muito alinhada com o propósito de retomar a internet (guardem essa informação ;))
Em pouco mais de três meses, já somos 30 mil no Instagram, mas queremos mais e melhor. Em breve, a gente vai te contar os próximos passos dessa conversa.
Mas, sem spoiler, primeiro vamos falar de julho. A parte boa: depois de uma intensa pressão popular, a Meta foi obrigada a voltar atrás. A empresa, em mais uma atualização que ninguém pediu, atropelou os nossos direitos e decidiu tornar as nossas fotos no Instagram disponíveis para qualquer um usá-las em sua IA. Sim: do absoluto nada, a empresa decidiu tornar as fotos de quem tem perfil público disponíveis para serem usadas pelo seu Muse IA, novo gerador de imagens da empresa. Por padrão.
Nós não deixamos barato. Fomos um dos primeiros a noticiar o absurdo, junto com um passo-a-passo de como desativar a funcionalidade. Nosso post chegou a mais de 700 mil pessoas. Depois, em um vídeo com Iana Chan, fundadora do PrograMaria, alcançamos novamente mais de 700 mil visualizações. Incomodamos – e muito. Sabemos que nos somamos a uma reação pública mundial contra a Muse AI que deixou a Meta sem opção: tiveram que recuar e cancelaram a funcionalidade. (Pelo menos desta vez não alegaram que a funcionalidade foi liberada por acidente, como aconteceu com os Mapas do Instagram, que revelavam a localização dos usuários e colocaram um monte de gente em risco.)
Esse caso mostra que uma ação rápida e articulada de pressão popular funciona, sim. Mas é preciso estar atento. Os lançamentos do Muse AI e do Mapas mostram que o “move fast and break things” pode até não ser mais o slogan da empresa, mas ainda é o seu modo de operação. Lançar primeiro, pensar depois. Forçar limites, regular depois (e, se possível, não regular nunca). Como se a empresa ainda fosse uma startup irresponsável e não uma empresa com 3 bilhões de usuários no mundo.
…enquanto isso, o YouTube finge que não vê os médicos de IA
Sempre dizemos que a lógica de produção e monetização de conteúdo das big techs é a raiz dos problemas. Seus produtos são defeituosos e premiam conteúdo de baixa qualidade. E a nossa investigação sobre uma rede de falsos médicos criados por inteligência artificial que estava usando o medo para viralizar entre idosos no YouTube é a prova disso.
Nossa investigação identificou 29 canais — 18 deles criados só em 2026 — somando mais de 70 milhões de visualizações em poucos meses, todos empurrados pelo próprio sistema de recomendação e monetização do YouTube. A BBC News Brasil transformou isso em reportagem, replicada pela Folha de S.Paulo, pelo G1, pelo Correio Braziliense e pelo Estado de Minas. O assunto ainda chegou à TV, com o Jornal da Record, o Bom Dia Brasil da Globo e o Jornal da Tarde da TV Cultura — que citou alertas da Anvisa e do Conselho Regional de Medicina de São Paulo — e até rendeu um alerta público do PT.
Mesmo após a ampla repercussão, a maioria dos canais que levantamos continuava no ar após quase um mês.
Um caso que resume bem por que essa mobilização importa é do otorrinolaringologista Hélio Brasileiro, que teve a imagem clonada por pelo menos cinco canais que usavam seu rosto para vender curas milagrosas.
A gente gosta muito de fazer barulho, mas barulho não é suficiente. O YouTube precisa agir. E agir não significa apenas apagar a rede de canais – mas adotar medidas práticas para que novos criadores de conteúdo não sejam incentivados, por recomendação algorítmica ou monetização, a produzir esse tipo de conteúdo. Caso contrário, é só enxugar gelo. Prova disso é que, mesmo após a ampla repercussão, a maioria dos canais que levantamos continuava no ar após quase um mês.
Pior: tinham aumentado a audiência em 30%. Ou seja: o YouTube já estava ciente, e nada fez. Continuou embolsando seu dinheiro, apesar de dizer publicamente que combate o chamado “AI Slop”, ou seja, esses canais de baixíssima qualidade feitos com IA para gerar dinheiro para seus criadores. A gente segue monitorando esse caso, e não vamos descansar enquanto o Google não tomar ações efetivas contra essa rede tão danosa.
E a Copa, hein?
Enquanto todo mundo comentava lance, escalação e arbitragem, a gente mostrou que o espetáculo tecnológico do futebol nada mais é que a reprodução da lógica de transformar em dados e lucro todos os aspectos da nossa vida, inclusive com trabalho invisível por trás disso. Essa lógica foi impulsionada, em grande parte, pela indústria das bets que, muito mais do que a Espanha, foram as grandes vencedoras dessa Copa.
Nas transmissões da CazéTV em parceria com o YouTube, os apresentadores davam dicas de apostas ao vivo, inaugurando um novo tipo e mais persuasivo de propaganda. Como sabemos que a relação de bets e big techs é simbiótica, levantamos dados sobre o percentual de odds sugeridas com resultado desfavorável ao apostador e sobre a participação do YouTube na receita publicitária de apostas de quota fixa e levamos essas evidências à Secretaria Nacional do Consumidor.
Nosso levantamento foi incorporado aos autos do Monitoramento de Mercado aberto contra a Google, instaurado a pedido direto da CTRL+Z, e da Averiguação Preliminar aberta contra a CazéTV. A Secretaria também deferiu nosso pedido para atuar como interessada nos dois processos, reconhecendo formalmente nossa atuação na defesa coletiva dos consumidores. Na prática, o Google, pela primeira vez, vai ter que prestar contas sobre a publicidade de apostas com as quais lucra dentro do YouTube.
A história de Geraldo
Na semana em que a taxação do Trump entrou em vigor, lembramos de um caso emblemático: a história de um Macintosh brasileiro criado por um paulistano que teve a coragem de peitar a Apple durante a década de 1980. O caso mobilizou lobistas, resultando em uma campanha agressiva de ataque à indústria brasileira de computadores e a uma ameaça de sanções comerciais ao Brasil, usando o mesmo dispositivo explorado pelo governo Trump.
O vídeo alcançou mais de 520 mil pessoas, o que nos fez pensar na importância do resgate e valorização de narrativas locais, que nos apresentem como produtores de tecnologia, e não apenas consumidores de produtos estadunidenses. Histórias como a do Geraldo têm potencial de reforçar o movimento de soberania popular e inspirar brasileiros a quebrar o ciclo da dependência tecnológica.
Se você perdeu, vale a leitura:
O que o Google não te contou no estudo que financiou sobre IA e jornalismo
A turma do panfleto: começou mais um lobby pesado para manter você preso às big techs
Por último, mas não menos importante: estamos animados para revelar algo que estamos construindo. Ainda não é o momento, mas sentimos que será um passo importante para nós e para nossa comunidade ctrlzeira! Quer ficar sabendo antes de todo mundo? Deixe seu e-mail aqui:
Enquanto isso, seguimos acompanhando de perto os passos das big techs, e com foco especial em eleições nos próximos meses. E aproveitamos para perguntar: qual abuso das big techs você acha que a gente devia investigar, denunciar ou levar à Justiça durante esse período tão importante para a democracia brasileira?
Um abraço,
Gabi Coelho e equipe CTRL+Z

